Educação I Ao Professor o ónus da responsabilidade!

Orador motivacional

“Carlos, anda não entregaste o trabalho e o prazo acabou há 3 dias”

“Ana, continuo a não receber a ficha de recuperação.”

“Miguel, enviaste o trabalho por corrigir”

“Maria, continuas a não rever o texto e o prazo acabou há uma semana”

 

No final de mais um período lectivo, e à beira da avaliação final que ditará os níveis a surgir na pauta, os professores esgotam-se num esforço desesperado e titânico para evitar desastres anunciados. Os prazos são dilatados além do admissível, aproveitam-se migalhas de lucidez no meio do caos de testes e trabalhos, sobrevalorizam-se ténues sinais de algum saber adquirido, enviam-se mensagens via correio electrónico e classroom quase implorando à exaustão a conclusão de tarefas. E tudo porque as hecatombes nas pautas passaram a ser de exclusiva responsabilidade do professor. É a ele que se exigem explicações e é apenas sobre ele que se afiam as garras afiadas do sistema.

Não deixa de ser um exercício peculiar analisar a alteração de paradigmas e comportamentos de professores e alunos. Precisamos de recuar umas décadas, mas ainda assim não muitas, para nos lembrarmos do que representava para um estudante os momentos de avaliação. Encarados com seriedade, testes, exames eram temidos por quem não se havia preparado atempadamente e de forma consistente. Pais e alunos tinham como garantido o rigor e a exigência, premissas fundamentais para a aferição real dos saberes. Uma auscultação honesta, sem rede, nem artifícios cosméticos. 

Os alunos estavam conscientes das consequências inevitáveis de uma má prestação e viviam comprometidos com perspectivas de sucesso escolar. Havia competição saudável entre colegas na conquista da melhor avaliação e, mais importante, uma competição íntima que cada um travava com o objectivo de alcançar o melhor de si próprio. Esta era a realidade de uma percentagem elevada de estudantes. Mesmo os mais distraídos e descontraídos, os menos trabalhadores e competitivos, reconheciam os momentos de testes, entrega de trabalhos e exames como ocasiões sérias sem segundas ou terceiras oportunidades. Era o “tudo ou nada”, o “agora ou nunca”. E, em casa, se os resultados não fossem satisfatórios, pediam-se explicações aos filhos e não se confrontavam os professores nem se questionavam metodologias, critérios de avaliação e muito menos se procurava na legislação labiríntica, o parágrafo salvítico que permitisse uma imerecida aprovação.  Quando se procurava um esclarecimento por parte da escola era com cordialidade e num registo de respeito que tal acontecia. É evidente que sempre houve excepções e da parte da tutela a postura sempre foi a de uma falta de reconhecimento e respeito pela classe docente, mas a representação da Escola na sociedade tinha outros contornos.

A alteração de comportamentos, que se tem vindo a acentuar, face aos momentos formais de avaliação é mais um dos sinais da deterioração da qualidade da Escola em Portugal para o que tem contribuído o facto ter vindo a assumir, ao longo das últimas décadas, uma concepção empresarial de si própria. E este paradigma produz efetos quer na sua organização interna, quer nos mecanismos que a alimentam quer na relação entre os diversos protagonistas. Nesta nova e inusitada visão, os alunos e os pais tornaram-se clientes a quem a escola tem de agradar e manter felizes a qualquer custo, mesmo que esse custo signifique colocarem-lhes lentes desfocadas, ludibriando verdades incómodas. 

Com esta “nova” Escola, conceitos que anteriormente existiam agregados à ética profissional de forma orgânica e desburocratizada surgem agora desfigurados e fantasiados. A adulteração de objectivos, indicadores, evidências, estratégias, é fácil de executar por muitas folhas de Exel, mapas, gráficos, tabelas, relatórios, planos e mais uma profusão de documentos que se inventem. 

 

A teia vertiginosa e profusa de documentos redundantes traduz-se numa espiral de loucura absolutamente insana, ineficiente e ineficaz. Talvez a mais longa e fiel dramatização real de uma obra: O Processo de Kafka. Em nome da transparência e de uma desconfiança intolerável acerca do trabalho dos professores criaram-se mecanismos que entopem o ensino e que são um convite à manipulação dos números de forma a poderem espelhar falsos resultados de sucesso. 

Nada melhor que um Exel para se demonstrar o que não existe. 

Face a pressões insustentáveis para a apresentação de resultados dourados e porque o ónus da responsabilidade é sempre colocado no professor, a classe docente vai baixando os braços, afundando-se em patamares mínimos de exigência, mascarando como pode a realidade, implorando a entrega de trabalhos, mexendo magicamente os números das tabelas . 

Vive-se hoje um ambiente tóxico nas escolas e afirmar o contrário é acreditar que uma mentira, se repetida à exaustão, tornar-se-á verdadeira. Em 2018 os Decretos-lei nº54 e 55 desferiram mais um golpe fatal na seriedade do processo de ensino/aprendizagem universalizando a ideia de que se o aluno não teve sucesso é porque o professor não esgotou todas as estratégias possíveis e impossíveis contempladas nas “adequações ou acomodações curriculares” e outros mimos semânticos. E caso persista o insucesso, há que aplicar as medidas selectivas que, em último caso, poderão representar a exigência do nada absoluto em termos de aprendizagem. Todo o cenário está montado para induzir, clara e irrefutavelmente, a manipulação dos números. A engenharia financeira que mascara realidades estruturais do país também entrou nas Instituições de Ensino Básico tornando-as numa anedota.

Com a falácia do discurso mentiroso da inclusão o que se está a fazer não é ajudar os alunos com dificuldades reais fruto de particularidades  que, objectivamente, não conseguem ultrapassar. O que se está a fazer é alimentar o logro, a adopção de esquemas para garantir passadeira rolante no processo escolar. 

Nesta nova realidade, os professores são encarados por pais e alunos como funcionários ao seu serviço sendo inteiramente da sua responsabilidade o insucesso escolar. Seria bom recuperar a ideia de que os professores não devem estar ao serviço de nada mais que a construção do saber, a partilha de conhecimento e comprometidos com a missão de garantir que as novas gerações se apetrechem com ferramentas intelectuais que as tornem honestos construtores do futuro.

O problema é que hoje a escola é um viveiro não talentos, parafraseando o livro de Daniel Coyle “ O Código do Talento “ cuja leitura recomendamos vivamente, mas de funcionários robotizados focados na competição económica, sem curiosidade científica, sem a luz da criatividade e da observação atenta, sem reflexão pessoal, facilmente manipulados e instrumentalizados, sem leitura crítica do que leem, ouvem e veem. 

Paradoxalmente e apesar de todo um cenário preocupante quanto às aprendizagens e responsabilidade discente, nunca como agora os alunos passaram tanto tempo na escola. E por isso terminamos com uma das conclusões de uma meta-análise de dados de 164 países (Measuring Human Capital Using Global Learning Data, 2021, Nature, Vol. 592), citada pelo professor Santana Castilho num seus últimos artigos. De acordo com o estudo, ao aumento do tempo passado na escola tem correspondido a um crescimento baixo ou mesmo nulo das aprendizagens. Ou seja, os alunos estão mais tempo na escola, mas aprendem mesmo. Acrescentaríamos que apesar de saberem menos têm melhores resultados espelhados nas pautas.

 

Entretanto um novo governo tomou posse, mas, a avaliar pela escolha do ministro da Educação, alguém que tem estado na equipa desde 2015, não parece que algo de novo surgirá.

Assim sendo, os professores podem estar certos que lamentavelmente continuarão a cumprir muitas horas à noite e fins de semana a enviar pedidos de entregas de trabalhos, na reconstrução de testes para os baixar ao nível rasteiro da exigência, no preenchimentos de múltiplos documentos reproduzidos e repetidos à náusea para encenar a seriedade que há muito deixou de existir. 

E tudo em nome da soberana Estatística.

antes pelo contrário. Os alunos que necessitariam de um ensino especializado vêem-se integrados em turmas a assistir a aulas que não são para eles, que eles nunca as entenderão e onde o professor nunca conseguirá chegar ajudá-los. Aos restantes alimenta-se a ideia de que não vale a pensa investimento no esforço pessoal, na resiliência, na autorresponsabilização e na autonomia porque haverá sempre um artigo num qualquer diploma que obrigue a adequações ue se está  a fazer é comprometer irremediavelmente a evolução e as aprendizagens de todos porque uns não beneficiam de um ensino direccionado e os outros apanham a boleia do facilitismo e vão alimentando a descrença.

Paula Timóteo