Duques de Cadaval I Estratégias de afirmação e sobrevivência

Herdade de Muge, na Casa Cadaval há 400 anos

Palácio de Muge, origem quinhentista

Vinho de alta qualidade

Cavalos com ferro Cadaval

Palácio das Cinco Quinas, Évora, hoje dos Duques de Cadaval, aberto ao público

Marquesa de Cadaval e o Rei Humberto de Itália

Olga de Cadaval em Sintra

Nella Maissa e João Paes, ao lado direto de Olga Cadaval

Rosalinda, Duquesa de Cadaval Hermès

Brasão Cadaval

Uma das mais importantes famílias nobres portuguesas, a de Álvares Pereira de Mello, duques de Cadaval, continua a deter vastíssimos patrimónios históricos e imobiliários. 

A Casa tem a sua génese num filho do II Duque de Bragança, descendente de D. Nuno Álvares Pereira.

O título de duque foi concedido pelo Rei D. João IV a D. Nuno Álvares Pereira de Mello, Marquês de Ferreira e Conde de Tentúgal. Este nobre notabilizou-se nas Guerras da Restauração, tendo sido general, conselheiro de Estado, ministro do Despacho da Junta Nocturna e Familiar do Santo Oficio.

O seu filho e sucessor, D. Luís Ambrósio de Mello, foi cavaleiro da Ordem de Cristo e uma figura íntima da corte. O 3º duque, D. Jaime de Mello, tornou-se estribeiro-mor de D. Pedro II e D. João V e integrou o Conselho de Estado e da Guerra.

 

Amado sobrinho

O 4º duque, D. Nuno Caetano, obteve o tratamento por parte de D. João V de “nosso muito amado sobrinho”, pelos serviços prestados no Conselho de Estado.

O 5º duque, D. Miguel Caetano, foi brigadeiro do exército e fez parte da delegação portuguesa enviada a Baiona para cumprimentar Napoleão.

Quando a família-real partiu para o Brasil, apesar de estar muito doente, o velho nobre acompanhou-a, vindo a morrer na Baía em 1808.

O seu filho, D. Nuno Caetano, foi  membro da regência após a morte de D. João VI, e par do Reino por nomeação de D. Pedro IV. 

Partidário do Absolutismo acabou por desempenhar as funções de ministro assistente ao Despacho de D. Miguel. Em 1833 comandou as tropas que defendiam a cidade de Lisboa dos Liberais. Vencido o duque, retirou-se para Elvas onde permaneceu até à Convenção de Évora Monte, partindo depois para o exílio, primeiro em Londres e depois em Paris. Faleceu em França em 1837.

Os seus descendentes fixaram-se na cidade de Pau durante cerca de um século. 

O 9º duque, D. Jaime Segismundo (1888-1935), serviu na 1ª Guerra Mundial, voluntariamente, como soldado motorista, com as tropas portuguesas.

 

Regresso a Portugal

O seu irmão, António Álvares Pereira de Mello, Marquês de Cadaval (1894-1939), serve, igualmente, o exército português durante a Grande Guerra. Casa com a Condessa Olga Nicolis de Robilant e fixa-se em Portugal em 1930 na Quinta da Piedade, em Sintra, à época votado ao abandono. O salão do palácio transformara-se em mercado de hortaliças e nos portões prendiam-se animais. De noite, vadios iam roubar limões e, por vezes, brigavam batendo às janelas.  

Em pouco tempo o solar modifica-se. O bom gosto, a riqueza, a criatividade, a paciência da nova senhora Cadaval operam milagres. Gente do mundo inteiro passa a frequentá-lo. Com grande entusiasmo, a marquesa organiza grandes concertos musicais. Rubinstein, Rachmaninov, Rastropovitch, Pablo Casals, Bela Bartok, Muhai Tang, Ravel, entre outros, tornam-se presenças assíduas. A marquesa preocupa-se, paralelamente, em incentivar os jovens artistas mais promissores, caso de Nella Maissa, Sérgio Varela Cid, Nelson Freire, Maria João Pires, Olga Pratz e Martha Argerich.

Íntima dos grandes da Europa, convive com poetas, romancistas, políticos, actores, historiadores, etnólogos, caso de Vitorino Nemésio, Virgínia Rau, Francisco Leite de Faria, Amélia Rey Colaço, Salazar, D`Annuncio, Marinetti, Ortega Y Gasset, o “homem mais inteligente que conheci”, disse-nos.

Amiga de infância de Pio XII, torna-se visita assídua do Vaticano. Durante toda a vida serve de intermediária entre a irmã Lúcia, que contacta mensalmente nos dias 13, e os vários papas.

Quando da chegada do Rei Humberto II de Itália a Portugal, Olga de Cadaval cede-lhe a sua Quinta da Bela Vista, em Sintra, que o ex-monarca habita por algum tempo. A Amélia Rey Colaço cedeu, por uma verba simbólica, na fase final da sua vida, uma moradia no Dafundo.

 

Maria Callas

Uma noite, num jantar em Veneza, fica sentada ao lado de Maria Callas e, em conversa, descobre que a diva gostaria de vir cantar a Portugal, mesmo gratuitamente. Como pagamento pretendia apenas ser apresentado ao Rei Humberto. Pouco depois, em 1958, Callas estava a interpretar a Traviata em Lisboa, num espectáculo memorável. Na Quinta da Piedade, Olga proporciona, então, durante um banquete, o encontro entre a soprano e o ex-soberano italiano, o que muito a sensibilizou.

 

Divisão da Casa Cadaval

Após a morte da sogra, a Condessa Graziela Zileri em 1952, os bens da Casa Cadaval são repartidos entre vários herdeiros, dando origem às casas Cadaval de Muge e de Évora.

A Marquesa de Cadaval herda três quintas em Sintra, o palácio e a propriedade de Muge, valiosas obras de arte, grande parte da biblioteca e de manuscritos – aliás a mais valiosa colecção privada do género existente em Portugal. Olga organiza o espólio e instala-o em Muge, onde ficam ao dispor de historiadores e pesquisadores. Virgínia Rau publicou dois volumes denominados “Os Manuscritos do Arquivo da Casa de Cadaval respeitantes ao Brasil“ e actualmente a documentação encontra-se em estudo pela Universidade Autónoma.

Na herdade são descobertos, na primeira metade do século XX, valiosos achados arqueológicos - sobretudo 16 esqueletos do paleolítico. Dois encontram-se tão bem conservados que os trabalhadores da propriedade se indignaram com o desenterramento. 

“Tive de pedir ao feitor que montasse guarda toda a noite. De manhã ele tinha-os baptizado de “Maurício e Angelina”, afirmou-nos a marquesa divertida.

O resto do património reverteu essencialmente para D. Jaime Álvares Pereira de Mello, 10º Duque de Cadaval. Nele destaca-se a Herdade da Mata do Duque, em Alcochete, o Paço das Cinco Quinas e a Igreja dos Lóios em Évora, parte da biblioteca e um diminuto núcleo de obras de arte e manuscritos. O duque resolve recuperar, apoiado pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, a histórica Igreja dos Lóios, edificada entre 1507 a 1513, para panteão familiar. A fim de continuar a tradição, D. Jaime manda transladar os corpos dos parentes sepultados em França e Itália. Paralelamente é inaugurado no Paço das Cinco Quinas um pequeno museu dedicada à Casa Cadaval. Nele sobressaem espadas, capacetes, esporas e lápides quinhentistas, forais manuelinos e cartas de mercê desde os séculos XVII ao XIX, imagens religiosas bem como um magnífico retrato representando o 3º duque, obra de António Quillard, artista francês do século XVIII.

 

Delapidações e sobrevivência

Ao longo dos séculos a Casa Cadaval foi espoliada de diversos bens. O palácio de Olivença viu-se ocupado pelas autoridades espanholas, os terrenos onde se encontra a Estação do Rossio, em Lisboa, e o Convento que alberga a pousada dos Lóios, em Évora, foram expropriados pelo Estado.

Em meados do século XX a família vende o Palácio de Pedrouços, em Lisboa, grande parte da baixela de prata do ourives setecentista Robert Joseph August, uma rara papeleira miniatura revestida com placas de cobre esmaltado da Companhia da Índias, dinastia Quing, telizes de prata e um retrato da 3ª duquesa, obra de António Quillard, pintor francês setecentista.

Nos Anos 90, Jaime e a sua mulher Claudine, Duques de Cadaval, resolvem recuperar o seu palácio de Évora e instalar no piso térreo um restaurante de charme. Paralelamente passam a promover o festival “Évora Clássica” dedicado à música tradicional e erudita. O investimento leva à venda da biblioteca, na qual se destacava uma obra de Blaeu, um cartógrafo seiscentista, que atingiu 50 mil euros.

Devido a partilhas entre o duque e as suas quatro filhas, a herdade de Alcochete é parcialmente urbanizada. 

O velho duque, D. Jaime, morre em Agosto de 2001, aos 88 anos. Pouco depois a Casa Cadaval de Évora torna-se palco de uma guerra familiar: as filhas Rosalinda e Diana, primogénitas, respectivamente, do primeiro e segundo casamentos do aristocrata disputam os diversos títulos da família. O processo só é resolvido em 2005 pelo Duque de Bragança que concede a Diana o título de Duquesa de Cadaval. A irmã Rosalinda (casada com o herdeiro da célebre casa francesa Hermès) herda os títulos de Marquesa Ferreira, Condessa de Tentúgal e recebe um novo título – o de Duquesa de Cadaval-Hermès. 

No século XXI nasce a terceira Casa Cadaval que, aliás, tem uma importância crescente. O seu património histórico é constituído por parte do arquivo familiar, preciosos manuscritos e álbuns de fotografia dos séculos XIX e XX, guardados num antigo convento do Alentejo. 

A Casa Cadaval de Évora encontra-se estável após a venda recente de diverso património. O grande projecto de transformar o paço de Évora em pousada de luxo foi abandonado. 

A outra Casa Cadaval de Muge desenvolve uma

marca de vinho e desenvolve a criação de cavalos. As casas deste ramo da família continuam a ser autênticos museus pelas preciosidades que encerram. Em Dezembro de 1995 a Marquesa Olga morre, aos 96 anos, sendo considerada a maior mecenas da música em Portugal. “A avó adorava rir, enchia uma sala, a maior saudade que tenho e da sua alegria. Quando conversávamos fazia-nos sentir que éramos as pessoas mais importantes para ela no mundo. E era espontâneo, ela era genuinamente curiosa”, diz-nos Teresa Schorborn.

Pouco depois falece a filha, Graziela, que se destacara pelas inovações introduzidas na agricultura ribatejana. A neta da marquesa, Teresa Schorborn, continua as pisadas da avó e da mãe, projectando a Casa Cadaval internacionalmente através da coudelaria e da preservação de vasto património - fundamental para a nossa história.

Fotos cedidas por Teresa Schorborn

 

António Brás