Com ele despertámos para o amor que arde sem se ver e percebemos o quão verdes são os campos da cor do limão.

Com ele estamos em sintonia sempre que nos dói o desconcerto do mundo. E como nos tem doído ao longo dos tempos…

Dele recebemos a saudade e o amor absoluto cantados na lírica do Renascimento num extravasamento de emoções e sentimentos na expressão verbal rítmica e melódica dos seus versos.

Nos seus poemas viajamos na sua alma inquieta e sofrida entre o ideal platónico do amor perfeito e o dos amores físicos, menores e próprios dos seres imperfeitos.

Com ele descobrimos que somos melhores, mais audazes, capazes da maior aventura da humanidade, a odisseia maior que nos fez ser o centro do mundo e levou a nossa identidade num sopro a todos os cantos do planeta.

Falamos naturalmente de Camões que há muito é sinónimo de Pátria porque cantar Camões é celebrar Portugal. Freitas Branco e Lopes Graça, Amália e Ana Moura foram alguns dos nomes que séculos depois musicaram e cantaram a poesia camoniana num fenómeno extraordinário de união de épocas com séculos de distância, mas que se encontram numa identidade comum. Camões lembra-nos constantemente a possibilidade tangível do que fomos e do que podemos ser.

Sobre a obra de Camões milhares de páginas já foram escritas e muito já se concluiu e estudou em contraste com a extrema escassez de informação sobre a vida de Luís Vaz de Camões que terá nascido por volta de 1524/25 e morrido em 1580. Mas inventa-se bastante.

A 1ª biografia de Camões surge com Pedro de Mariz, contemporâneo do poeta. Apesar de ter 30 anos quando o poeta morre e ser por isso natural que estivesse bem informado sobre o biografado, desvenda muito pouco sobre a vida de Camões sobretudo na fase anterior à partida para a Índia (1553). Saberia, Pedro de Mariz, mais do que escreveu? Nunca o saberemos, mas parece claro que há na sua “biografia” a preocupação em desresponsabilizar terceiros sobre a miséria em que Camões acabou os seus dias e a informação de que este não havia beneficiado de proteção nem de sustento de ninguém apesar de surgir a referência a um escravo trazido da Índia o qual, através da mendicidade a que se sujeitava, asseguraria a comida diária para si e para o seu amo. Porém, até a existência deste escravo é alvo de dúvidas dado que a pobreza de Camões não seria compatível com tal situação. Esta primeira narrativa biográfica surge como prefácio à edição dos Lusíadas de 1613 e é de facto rudimentar.

Em 1624 o cónego Évora Manuel Severim publica uma biografia e Plínio é citado logo no início quando o autor diz que a grandeza dos homens é serem autores de obras tão notáveis que os vindouros se interessem por saber quem foram os autores delas sublinhando, desta forma, a indiscutível grandeza de Camões sobre o qual irá falar. Este segundo biógrafo evidencia conhecer as notas de Mariz, mas na sua obra não surge grande parte do que o seu antecessor escreveu nomeadamente a história do escravo. O cónego irá preferir ouvir os que ainda vivem e que haviam sido contemporâneos de Camões conseguindo traçar a fisionomia do poeta o que não deixa de ser interessante, “Foi Luís de Camões de meã estatura, grosso e cheio no rosto e algum tanto carregado da fronte; tinha o nariz comprido, levantado no meio e grosso na ponta; afeiava-o notavelmente a falta do olho direito. Sendo mancebo, teve o cabelo tão louro que atirava a açafroado”.

Porém, a sua preocupação e interesse irá incidir sobretudo em procurar na obra de Camões pistas e sinais da sua vida e da sua personalidade.

No século XIX destacam-se dois estudos particularmente interessantes: o do conde da Juromenha (1860) que consegue descobrir os documentos originais e que representam o que até hoje se conhece da época e um outro, de Wilhem Storck (1890), traduzido para português por Carolina Michaelis Vasconcelos numa obra impressa em Portugal em 1897. E fica claro, nos textos biográficos, que o período ignorado da vida de Camões, o que antecede a ida para a Índia, se vai tornando a época que mais entusiasma os autores e o que oferece mais campo para fantasias.

Traçar a vida de Camões através da sua obra é, certamente, um risco porque obviamente assente em entendimentos e ilações subjectivas, mas é sem dúvida na obra que podemos encontrar o poeta na sua pureza transparente porque é na poesia que ele revela as emoções que o animam convidando-nos a entrar na intimidade da sua alma, na leitura do seu pensamento, na partilha das suas tristezas, dúvidas e desgostos. A sua poesia é tecida de sentimentos que nos dão a saber com profundidade a individualidade do poeta. Um despojamento próprio do novo paradigma mental que se anuncia com o Renascimento. Fiel às temáticas que a época cultiva, a sua obra vai abordar o amor platónico, a saudade, o destino, a beleza suprema. Camões foi ainda capaz de conciliar dois mundos: a poética tradicional, ligada a formas poéticas tradicionais como cantigas, vilancetes e trovas e o estilo renascentista concretizado em novas formas de composição, como o soneto, a canção e a ode. Na sua obra o poeta revela-se inquieto e insatisfeito por não encontrar harmonia entre a vida ideal, marcada pela busca do amor, e a realidade concreta. A dicotomia entre o que deseja e o que consegue é um traço identitário com o qual tantos de nós se identifica e por isso a poesia de Camões continua a respirar no século XXI com a vitalidade de Quinhentos.

Será, no entanto, os Lusíadas a obra maior do poeta, o poema épico da língua portuguesa cujo nome anuncia sobre quem os versos glorificam e cantam. São os lusos, os heróis portugueses, que mobilizam a história a ser contada em dez cantos “Que eu canto o peito ilustre Lusitano/A quem Neptuno e Marte obedeceram”. Cada canto funciona, como sabemos, como um capítulo de um extraordinário romance. Publicado por Camões em 1572 e composto de 1102 estrofes, os Lusíadas são o povo e a pátria lusa, a glória e a coragem, o sonho e o espanto, a paixão e a memória, é, enfim, o “valor mais alto que se levantou”.

Pouco ensinado nas escolas, os Lusíadas têm sido mitigados na sua extensão em coerência com uma lógica de crescente atrofia do exigido aos estudantes e nivelamento por padrões de pequenez intelectual. Ao mesmo tempo que vemos a obra de Camões que é muito mais que os Lusíadas e cujo estudo deve ir muito mais além do que a análise técnica dos versos, relegada para um plano secundário, assistimos ao menosprezo da língua portuguesa bem falada e bem escrita. O desacordo ortográfico é apenas um vértice do prisma. A forma como o ME pressiona (de forma mais ou menos subtil) as escolas para desprezarem a impreparação dos alunos em Português é alarmante e chocante. Por isso, quando actualmente se festeja com pompa o dia de Portugal de Camões e das Comunidades Portuguesas, deveríamos pensar que bem mais importante que os protocolos cumpridos com rigor de régua e esquadro ritualista, a melhor forma de homenagear Camões e sobretudo Portugal e os portugueses espalhados numa diáspora que nos enriquece bem como a Língua Portuguesa, seria respeitar a nossa língua, engrandecê-la com obras maiores, valorizá-la na escola, respeitar o conhecimento tornando-o protagonista no sistema educativo para que nos tornemos melhores e menos atávicos. Honrar o significado do 10 de Junho é sermos de novo audazes e construtores de um mundo novo. A epopeia contada por Camões exalta um povo herói, uma História e uma odisseia plena de coragem e ideias. Hoje continuamos a ser um povo herói que se levanta todos os dias mesmo que a esperança falhe. Um povo que luta diariamente para não desistir e temos os novos aventureiros, gente emigrada pelo mundo na descoberta de si próprios e de uma vida sem bolsos vazios. E sentimos, como o poeta, esta inquietação perante um mundo desconcertado. Falta-nos o resto: a audácia de cumprirmos a possibilidade do que podemos ser. Falta-nos abandonar a “cretinice” de cedermos a laivos de petulância ignorante.

Da vida de Camões pouco sabemos além dos episódios de um jovem irreverente e dado à boémia, do episódio de Ceuta que lhe roubou a visão de um dos olhos, da desilusão que representou Goa, dos amores impossíveis. E sentimos em Camões a melancolia que um mundo em mudança lhe causava “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/Muda-se o ser, muda-se a confiança”. Mas Camões foi maior que ele próprio.

Sejamos, pois, capazes de sermos maiores do que esta pequenez de país envergonhado da sua cultura, da sua língua e da sua História.

 

Paula Timóteo

Camões I O poeta que (mal)amamos.

Escultura representando CAMÕES. Bronze assente sobre pedra mármore séc. XIX. Autor: António Maria Ribeiro.