Veva de Lima I Uma Poetisa Esquecida

Maria Ulriche, fundadora da casa Veva de Lima.

Escadaria nobre.

Fachada Romântiva da Casa Veva de Lima.

Salão principal com papeis pintados.

Paineis representando a Lenda de Psyché.

Gabinete Oriental.

Painel Chines.

Veva de Lima retratada pelo Cecil Beaton.

No centro da capital, um palacete cor-de-rosa guarda com um dos interiores mais fantásticos da cidade. Nele viveu durante décadas Veva de Lima que se notabilizou como escritora, poetisa, dramaturga, cronista e conferencista.

A casa albergou o último salão literário de Lisboa onde conviviam figuras do mundo da arte, da literatura, da política e da música. Tudo girava em volta de Genoveva de Lima Mayer, conhecida por Veva de Lima, filha de Carlos Mayer, um dos Vencidos da Vida.

“Recordo-me muito bem dela. Tornara-se visita frequente de minha avó, Maria Luísa Mayer, condessa de Cartaxo”, conta-nos Madalena de Mello, sua prima.

“Era uma grande figura, muito teatral na voz e nos gestos, mas brilhante. Alta e esguia, sempre bem vestida e, invariavelmente, usando boquilha”, sublinha-nos.

A directora da Moda & Moda, familiar próxima da Baronesa de Resende, uma senhora ultra moderna que dominava muitas línguas, pois cresceu num palácio do Bairro Alto onde teve professores de várias nacionalidades, o que a levou a ser a 1ª. Locutora da Emissora Nacional, seguida de Áurea Batalha Reis e de Fernando Peça que terminava sempre com a sua frase: “e esta hein”?

A directora Moda & Moda, ao tempo estudante, ia sempre com a Baronesa de Resende, sua familiar e amiga, a tudo o que era festa levava sempre na sua companhia a sua prima e amiga Marionela Gusmão, com quem aliás, ia sempre a S. Carlos.

O chamado palacete Ulrich foi alugado em 1920 por Ruy Ulrich, professor universitário, embaixador e governador do Banco de Portugal para residência da família. Rapidamente fez-se um salão literário, palco de muitas e brilhantes recepções entre os anos 20 e 40.

O local era fantástico. Das janelas e do jardim observava-se um panorama vasto em direcção ao Tejo, mas as urbanizações das décadas seguintes retiraram essa vista.

Interior faustoso

O edifício foi completamente renovado por Veva de Lima mantendo, no entanto, a arquitectura romântica do tempo do Conde de Vilar Seco que o mandou construir em 1894.

A casa desenvolve-se em três pisos, mas as grandes modificações centraram-se no átrio, na escadaria e no andar-nobre.

A decoração, eclética e qualificada, tem um gosto clássico e vanguardista, misturando diversos estilos e correntes.

O átrio é marcado por um pesado reposteiro armoreado e uma grade em ferro forjado com aplicações de vidro, em estilo art deco.

Na escadaria destacam-se uma tapeçaria flamenga setecentista e peles de leopardo, tigres, zebras e antílopes.

As peles recordam a visita que Veva de Lima fez a África nos anos 20. A poetisa trouxe um leopardo vivo que se passeava livremente pela casa e jardim para espanto dos visitantes e vizinhos.

O andar nobre, constituído por cinco salões, era o mundo de Veva de Lima. O salão teve as paredes revestidas com 12 painéis de papel pintado com cenas clássicas da lenda de Psyché. O conjunto, produzido em França, é hoje raro e valioso.

O resto da decoração comporta mobiliário Império, objectos de vitrine como um pisa-papéis assinado por Lalique e Companhia das Índias, dois enormes candelabros desenhados por Veva de Lima bem como espelhos com borboletas e cisnes, símbolos da escritora.

A biblioteca tem paredes revestidas a biombos chineses, influência tardia do gosto de final de 1800.

Em tempos a sala albergou a biblioteca de livros antigos de Ruy Ulrich, transaccionada nos Anos 40 por dificuldades económicas.

“A vida de Veva de Lima foi marcada por momentos menos bons. O filho morreu prematuramente, as dificuldades chegaram, ela envelheceu mal e vivia mais retirada”, sublinha Madalena de Mello.

“No fim restou a filha, era um forte apoio da mãe, mas muito diferente dela. Tratava-se de uma pessoa introvertida, mais voltada para o lado espiritual e para as crianças, tendo fundado uma escola de educadoras infantis”, informa uma familiar.

Obras marcantes

O acervo da casa vale pelo seu todo, havendo poucas peças que possam destacar-se. Na pintura sobressaem dois retratos da escola holandesa atribuídos a Franz Halls, uma cena de género assinada por David Teniers, pintor muito falsificado ao longo dos tempos, uma pequena tela naturalista de Silva Porto e duas gravuras de Sousa Lopes. Na escultura evidencia-se uma estatueta em bronze retratando Eça de Queiroz, em corpo inteiro, de Silva Gouveia, bem como um banco, uma grade e um candeeiro em ferro forjado de Chaves Ferreira, onde se denotam influências da art deco.

Abertura ao público

Veva de Lima desaparece em 1963, aos 77 anos. “Ao chegar ao velório, que decorreu no salão, ela estava vestida de rosa exactamente a cor que predominava nessa divisão”, confidencia-nos Madalena de Mello.

A casa passa a ser habitada pela filha Maria Ulrich, que tudo preservou, incluindo o luxuoso guarda-roupa de origem francesa guardado no sótão.

Os problemas de conservação são cada vez maiores, e, em 1980, a filha doa o recheio ao município de Lisboa. A câmara assume a contrapartida de adquirir o imóvel por 100 mil euros aos Condes de Anadia, e a restaurá-lo.

Maria Ulrich funda a Associação Veva de Lima com o objectivo de “homenagear a pessoa e acção de sua mãe, preservando a integridade do património e da casa, a fim de manter nela em funcionamento um centro de convívio cultural destinado ao estudo literário e artístico de 1850 a 1950”, escreve Alexandra Reis Gomes.

Na actualidade a Casa Veva de Lima, dirigida pelo professor universitário Alfredo Magalhães Ramalho, continua em plena actividade, e a Câmara de Lisboa última grandes obras orçadas num milhão de euros.

O discreto palacete é o derradeiro sobrevivente dos inúmeros salões literários que Lisboa teve, deles restando fachadas e algumas parcas memórias.

Oxalá haja alguém capaz de dinamizar este espaço que faz reviver a Lisboa chique e culta que tem ido desaparecendo.

António Brás