Museu-Escola de Artes Decorativas Portuguesas

Palácio Azurara, hoje Museu-Escola de Artes Decorativas

O célebre estojo de viagem do século XVIII

Quarto D. José

Sala do século XVIII

Sala D. Maria

Sala da Música

Quarto do século XVII

Sala das Esteiras

A misteriosa mesa de jogo, toucador e de chá

Há 70 anos, Ricardo Espírito Santo instituía em Lisboa uma fundação com o seu nome. O objectivo era o de preservar e apoiar as artes tradicionais portuguesas de que era um apaixonado. 

Na actualidade, o Museu-Escola de Artes Decorativas encontra-se numa encruzilhada. As dificuldades acentuam-se ano após ano. Os subsídios anuais do extinto BES terminaram, as encomendas e restauros vão rareando, o subsídio anual da Santa Casa de Lisboa revela-se insuficiente, e um leilão recente de réplicas de móveis ficou muito abaixo das espectativas. 

No edifício do museu as infiltrações são constantes, o encerramento de piso da sobre-loja foi a única opção pela falta de guardas.  A desmotivação instalou-se.

Nas oficinas as poucas encomendas e os ordenados em atraso fizeram instalar um clima de forte preocupação.

O estado, cujo subsídio anual é irregular, mandou classificar o acervo artístico da fundação, dado o mesmo e a sede do museu reverter para a família em caso de extinção.

Hoje a fundação luta pela sobrevivência perante a indiferença quase generalizada dos poderes.

 

Figura marcante

Admirador de Salazar, íntimo de Amália, amigo de Rei Humberto de Itália, Ricardo Espírito Santo foi uma figura marcante na cultura do País. 

Era um homem afável e elegante, sensível e rigoroso, displicente e ousado - e, sobretudo, milionário. 

Uma amizade profunda ligou-o a Amália Rodrigues, então em início de carreira e de ascensão social. Paciente, ensinou-a a afirmar o bom gosto, a assumir o talento. Emprestou-lhe dinheiro para comprar o seu palacete de São Bento e ofereceu-lhe móveis do século XVIII para o decorar. 

Outra mulher a quem iniciou na etiqueta protocolar (e a quem incitou a comprar um andar em Benfica) foi D. Maria de Jesus Caetano Freire, a célebre governanta de Salazar.

Visita afectuosa de São Bento, Ricardo Espírito Santo exerceu influência na decoração da residência oficial do próprio Presidente do Conselho. Salazar dedicava-lhe, aliás, simpatia e confiança.

“Todas as noites, Salazar chamava o nosso amigo Ricardo. A conversa era sempre longa e insólita; versava principalmente problemas de saúde dos dois”, anota a propósito a Condessa de Paris, nas suas memórias. 

 

Horror aos aviões

Detestando viajar (tinha horror aos aviões), Ricardo Espírito Santo estabeleceu redes de agentes no Ocidente que o mantinham informado dos movimentos do mercado da arte em Londres, Paris, Géneve e Nova Iorque.

Os negócios de família, nomeadamente a banca, eram outra paixão sua. Empresário de sucesso foi uma pedra fundamental no alargamento do império Espírito Santo. 

Uma das suas mais ambiciosas realizações foi a Escola-Museu de Artes Decorativas. O seu propósito era mostrar a nossa cultura e preservar os ofícios tradicionais, formando especialistas de restauro, reprodução e decoração.

No museu expõem-se hoje cerca de duas mil obras que reflectem os interiores das casas nobres portuguesas dos séculos XVII a XIX. 

 

Tapete deteriorado

A primeira peça que adquiriu foi um tapete do século XVII de Arraiolos, muito deteriorado. Tinha 16 anos. Como na família não havia tradições de coleccionismo, os irmãos ficaram escandalizados com o trapo que ele levou para casa. 

Aos 18 anos casou com Mary Sarmento Cohen que se tornou uma presença assídua na sociedade portuguesa. Ao longo da vida, o banqueiro ajudou inúmeros pintores, escritores, actores. Eduardo Malta, António Botto (pagou-lhe a ida para o Brasil) e Beatriz Costa foram alguns dos beneficiados. Financiou o “Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses” de Fernando Pamplona e “Obras-Primas da Pintura Flamenga dos Séculos XV e XVI em Portugal”, de Luís Reis Santos. Foi co-autor dos livros “Tesouros da Ourivesaria Francesa em Portugal” e “Porcelana Chinesa ao Gosto Europeu”.

Os primeiros parques infantis para crianças pobres, surgidos nos anos 30, em Lisboa, tiveram nele um apoiante incansável. Ofereceu um cheque de 30 contos, quantia substancial na época. a Fernanda de Castro, criadora dos referidos parques, dizendo-lhe: "Foi muita bonita a sua ideia. Acho-a poética, e eu gosto de poetas", contará a escritora nas suas memórias.

A vivenda que reconstruiu em Cascais, na Boca do Inferno, foi um capricho de coleccionador  e de inovador. Nos anos 30 aquela zona era inóspita e desabitada. De estilo tipicamente português, por ela passaram a família real espanhola, os Condes de Paris, o Rei de Itália, a Princesa Helena da Roménia, os arquiduques Francisco José e Ana de Áustria e os Duques de Windsor.

Ricardo Espírito Santo morreu inesperadamente a 2 de Fevereiro de 1955, aos 54 anos, na sequência duma intervenção cirúrgica. 

 

Móveis em Versailles

A fundação que lançou tem dezenas de artifícies espalhados por inúmeras oficinas. Delas sobressaem as de marcenaria, embutidos, talha, pintura decorativa, cinzelagem, encadernação e restauro de porcelana e faiança.

Os palácios de Versailles e Fontainebleau foram, por exemplo, clientes assíduos. A família Rockfeller, assim como a casa-real inglesa, testemunham igualmente a capacidade da fundação.

Salazar chamou um dia Ricardo Espírito Santo e Manuel Queiroz Pereira dizendo-lhes: "É preciso um hotel de luxo em Lisboa". Eles contactaram arquitectos, artistas, decoradores e surgiu o Hotel Ritz. O mobiliário das suítes e dos salões principais foi feito na fundação.

Os palácios de Belém, Seteais, Palmela, Belém, Queluz, Casa dos Cónegos e São Marcos ostentam, entre outros, recheios nela executados. O mesmo sucede com edifícios de várias embaixadas portuguesas no mundo.

Com meio século de antecedência, Ricardo Espírito Santo percebeu que se não preservassemos a arte mais genuína, ela perder-se-ia. O esforço que fez nesse sentido tornou-o um dos  maiores mecenas do século XX. 

 

Museu único

O edifício-sede da fundação, um palácio seiscentista no Largo das Portas do Sol, em Lisboa, acolhe a mais relevante coleccção de artes decorativas portugueses. Em 22 salas podemos comtemplar ambientes dos seculos XVII e XVIII, onde sobressaem móveis, têxteis, porcelanas, faianças e pratas de grande qualidade e raridade. Todo esse acervo tem vindo a ser objecto de aprofundados estudos, destacando-se o publicado no livro-álbum “Móveis de Conter, Pousar e de Aparato, dos séculos XVI a XIX”. O seu conteúdo baseia-se no espólio da fundação realizado por Fernanda Castro Freire.

 

Obras-primas

A colecção de Ricardo Espirito Santo foi realizada com paixão e resiliência. “Sempre gostei”, palavas do banqueiro, “do seculo XVIII, e de artes decorativas portuguesas e francesas, dos primitivos flamengos, da porcelana alemã e das pinturas de Pillement”.

Da colecção faziam parte um excelente conjunto de móveis franceses setecentistas (leiloados em 1955), de caixas de Saxe, de cinco baixelas da Companhia das Índias (divididas entre a mulher e as quatro filhas), além de um par de serpentinas de Thomas Germain, obras hoje em paradeiro incerto. O par de serpentinas foi pretendido por Calouste Gulbenkian, dado aparecerem no retrato do ourives exposto no Museu Gulbenkian. 

Nos mercados surgem frequentemente peças do empresário. Nos últimos anos ocorreram em londres os leilões das colecções das filhas de Ricardo Espírito Santo, Ana Maria Bustorff e Rita Leite de Faria, destacando-se porcelanas da China, mobiliário e pintura europeia.

 

Obras-primas

Entre as antigas obras-primas do banqueiro destacam-se os óleos “São Bernardino de Siena” de Quentin Metsys,  legado por ele a Salazar – que o doaria ao Museu do Caramulo, e  o retrato de “Maria de Medicis” de Franz Pourbus, oferecido pelo banqueiro ao Museu do Caramulo. 

Entre as obras cimeiras preservadas no museu da FRESS destaca-se a Mesa dos Três Tampos (jogo, chá e toucador) móvel executado no terceiro quartel de 1700 considerado um dos mais requintados trabalhos da marcenaria portuguesa, com ferragens rocaille em prata. Nos últimos anos surgiu uma mesa idêntica no mercado leiloeiro de Lisboa, classificada como obra setecentista, que atingiu o valor de 250 mil euros. Outra mesa integra o acervo da colecção Medeiros e Almeida e uma quarta pertence à família Teixeira da Mota, todas consideradas da época.

António Brás