Aurélia de Souza I Pintora intimista da luz, das sombras e da cor 

Aurélia de Souza

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Aurélia de Souza

Há mulheres que marcam uma época, mas nem sempre a época se dá conta desse facto nem o tempo que se lhe segue lhes faz justiça. Aurélia de Souza foi um desses exemplos.

Maria Aurélia de Martins de Souza nasceu a 13 de Junho de 1866 em Valparaíso, filha de pai português e mãe espanhola. Apesar de grande parte da sua vida ter sido cumprida em Portugal, onde chegou com 3 anos, nunca abdicaria da nacionalidade chilena tal como 4 das suas 6 irmãs igualmente nascidas no Chile. 

O pai acalentara o sonho de adquirir uma propriedade que costumava ver quando corria o Douro como comerciante, e assim o fez depois de amealhado um sucesso financeiro tranquilo no Brasil e no Chile. E foi ali, na Quinta da China, uma propriedade debruçada sobre o Douro,  que Aurélia viveu envolvida. No ambiente predominantemente feminino  da Casa de família, a artista encontrou um universo pleno de motivos e inspiração para a sua narrativa pictórica tecida com uma poética muito própria. A Casa, que, quem sabe, poderá ter sido ou “a possibilidade ou o limite da obra produzida”, conforme a interrogação que Raquel Henriques da Silva nos deixa no seu livro sobre a pintora, está profundamente presente na sua obra, nas rotinas dos dias longos, na figura da mãe, nos ambientes íntimos, na captação dos pormenores, no jardim e na luz intimista. 

Desde cedo Aurélia denotara um olhar especial sobre as pequenas e singulares coisas da vida que passam normalmente despercebidas. Vale a pena recordar dois episódios da sua infância: conta-se que um dia ficara absorta olhando os dedos sobre o piano, suspensa num exercício que o professor orientava. Questionada sobre por que razão parara de tocar explicou que estava simplesmente a observar o feitio das mãos sobre o piano. Numa outra ocasião a mãe surpreendeu-a em pranto que tranquilamente justificou dizendo que estava apenas a ver as cores que as lágrimas apresentavam ao sol.

Depois de passar pela escola Superior de Belas Artes do Porto, que frequentou com a irmã Sofia, tendo nessa altura recebido o prémio Barão de Castelo de Paiva, partiu para Paris contando com a ajuda financeira de uma irmã e do cunhado. Na cidade da luz conquistou prémios e intercalou a sua aprendizagem com estadias em Calais onde pintava. Infelizmente nada se sabe de concreto sobre o seu percurso além de ter ali estado com a sua irmã Sofia que lhe seguiu o trajecto académico no ano seguinte inscrevendo-se igualmente na Academia Julien. Neste silêncio documental, nesta ausência de interesse que a sociedade portuguesa dedicou ao percurso de Aurélia de Souza, em evidente contraste com a profícua informação sobre um seu contemporâneo, António Carneiro, presente em Paris na mesma época, encontramos as evidências de uma época profundamente marcada pelo papel masculino nas artes. Um mundo e uma época em que Aurélia se evidenciou numa modernidade singular, não apenas pela arte, mas pela sua inteira autonomia e emancipação feminina que não precisou de um casamento vantajoso e confortável para alcançar conforto e independência financeira.

Aurélia não foi apenas um exemplo de audácia feminina ao assumir a pintura como actividade primeira, mas igualmente pela sua autonomia numa vida que preferiu ser de recolhimento na atmosfera feminina da Casa plena dos ritmos das mulheres e das crianças que foram sendo adoptadas. Aurélia optou por se manter afastada das dinâmicas e polémicas artísticas e de um papel interventivo nos meios elitistas talvez por não desejar desgastar-se numa luta desigual num mundo onde as mulheres podiam pintar umas flores, mas não seriam nunca mulheres pintoras. Para quê o desgaste se aquele mundo familiar povoado de afectos, cores, e luz lhe trazia felicidade e onde pintava o que gostava, como gostava, e quando desejava? Os seus óleos são sobretudo crónicas das vivências da Quinta da China onde tanto lhe interessava um canto escuro da Casa como o jardim banhado pela luz coada das árvores numa tarde de Verão, ou o luto carregado de uma mãe duas vezes viúva. Como reflecte Raquel Henriques da Silva trata-se de “uma pintura vigorosa, raramente volumétrica, detida na análise das sombras para captar o momento em que magicamente a luz nelas simula a vida”.

Porém, e apesar da atmosfera caseira e familiar estar presente de forma muito marcante na sua obra, foi o retrato de género  que a notabilizou. Retratos de encomenda, de si própria, de familiares, assinalam um caminho que começou por ser meramente académico, mas que se iria afirmar num registo muito próprio. Podemos encontrar neste género a busca incessante da pintora por um discurso entre o expressionismo e o simbolismo. Tal como Carneiro, Aurélia representa uma via modernizante de chancela portuense, mas em simultâneo um confronto com uma sociedade dominada pelas elites masculinas que se movimentavam entre tertúlias e encontros que ela não procurava. Uma postura enigmática e misteriosa condizente com os temas escolhidos e a forma como os “lia” em rasgos de pincelada introspectiva.

A obra de Aurélia tece-se num discurso modernista de matriz naturalista, um naturalismo não contestado antes reinventado com o olhar silencioso e o carácter solitário da pintora. Para a pintora portuense o seu mundo particular era suficientemente rico de temas e oportunidades para desenvolver o seu trabalho onde as sombras, a claridade, as cores e os pulsares dos dias são protagonistas no que podemos encontrar uma aproximação à estética impressionista e nos faz lembrar Vermeer- um cronista da trivialidade como lhe chamou Galeano. Aliás não podemos desvalorizar o impacto que terá tido na pintura de Aurélia a viagem que esta fez com a sua irmã Sofia pela Europa, no regresso a Portugal após os estudos em Paris, e onde a pintura flamenga lhe terá despertado especial interesse.

O seu auto-retrato que se pensa ser de 1900 (não datado nem assinado o que era comum nas obras de Aurélia) é considerado o melhor auto-retrato da pintura portuguesa, de acordo com o crítico e historiador de arte José Augusto França. Nesta obra, Aurélia sintetiza de forma condensada dois aspectos: a particular relação que tinha com a cor e uma abordagem de si própria sem subtilezas num realismo quase perturbador. Trata-se de um retrato austero e sereno, verdadeiro e desprovido de ilusões. O crítico de arte Bradley Winterton considerou ser uma das raras obras onde se evidencia uma desiludida consciência da mortalidade. Foram vários os auto-retratos e todos eles singulares, mas este apresenta-se como uma composição que se impõe pelo olhar, doce e céptico, severo e etéreo dirigido a coisa alguma. O rosto é trabalhado numa tonalidade equívoca, onde o verde desponta em alguns pontos acentuando uma palidez que realça o azul do olhar. Trata-se de um rosto que nos sugere a fuga de um espaço imaterial numa dinâmica de avanço na nossa direcção. Um retrato onde o vermelho do casaco nos traz de regresso à realidade luminosa dos dias. 

Lamentavelmente grande parte da obra de Aurélia mantém-se longe dos olhares dos visitantes do museu Soares dos Reis onde a pintura no feminino continua relegada a um lugar secundário. 

Paula Timóteo