Macacos  I  Animais ágeis e cómicos

Macacos em bronze de rara valia. Trabalho em metal dourado e lavrado. Bandeja/suporte de vela. Renascença. 16 cm.

Par de candelabros em porcelana da China de rara beleza. Séc. XVII? 26 cm.

Netsucko de grande raridade, representando um macaco vestido de frade e apoiado a um pau. Depois de bem analisado, ficamos com a sensação de os japoneses que viam nos frades uns pobres pedintes. É histórico, mas é feio. 4 -

Macaco em ágata que a autora deste texto usou na sua juventude como um talismã.

Macaco em pedra brincando sobre pequena bacia. Séc. XIX

Macaco em pedra brincando sobre pequena bacia. Séc. XIX

Macaco em marfim acocorado e com aspecto de poucos amigos

Macaco em bronze com 19 cm.. A sua distração é tocar pandeireta. Séc. XIX

Escultura em madeira representando um gorila com 24 cm. Séc. XX

Macaco em marfim fazendo ginástica ? Oferta da Condessa de Tavira, a minha querida tia Teresa

Uma reprodução grosseira dos três macacos de Jingoro, no templo de Nikko, dos quais um tapa os ouvidos, o segundo olhos e o terceiro a boca, ou seja não ouvir, não ver, nem falar.

Macaco em prata, um brinquedo que tive em criança,

Pedra dura lavrada com macaco a puxar os frutos da felicidade.

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Um macaco na sua melhor posição.

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Elegante escultura de rapazinho de chapéu estendido na mão a pedir esmola para o seu macaquinho sentado a seus pés. Bronze assinado pelo escultor Le BLANCK.

Desde criança que tenho uma grande simpatia por macacos. Deveria ter cinco ou seis anos de idade, quando no Algarve, na cidade onde vivia, alguém me avisava sempre que havia saltimbancos na rua. Aí, vinha, de imediato, até uma das minhas várias janelas para apreciar o trabalho daqueles grupos muito modestos que faziam habilidades próprias de ginastas de 3ª. categoria, sempre na companhia de um macaco vestido com roupas muito pobres, mas garridas, o qual saltava sem grande jeito, mas que era para mim, uma graça. Coitados, tinham sempre os rabos adoentados e feios, com qualquer doença que nunca soube distinguir. Confesso, humildemente, que guardo na memória aquela pobreza que me despertava um sentimento de piedade. Então, ia junto da minha avó pedir alguma coisa para dar ao grupo dos saltimbancos.

 

E… lá conseguia, umas moedinhas, alguma fruta, pão e mais alguma coisinha que animasse aquela pobre gente. Riam-se, muito contentes e esse era o seu agradecimento.

 

A população chamava-lhes os “títeres”, uma espécie de palhaços que punham um modesto tapete no chão para darem algumas cambalhotas sem jeito nem preceito. O macaco era a maior animação daqueles pobres grupelhos. Enfim, nesse tempo eu ainda era uma criança, o que significa que essas cenas se passaram na rua há já muitos anos.

 

Depois, vim estudar para Lisboa e tal coisa nunca vi nesta cidade onde resido. Suponho até, que esses teatrinhos de rua já não existem. Em qualquer dos casos, trouxe aqui esta minha vivência de criança porque este artigo é dedicados aos macacos nas artes decorativas e nas minhas memórias de infância estes animais têm um lugar tão especial que, em tempos, os ia visitar ao Jardim Zoológico. Hoje, já não disponho nem de tempo nem de paciência para tal deslocação.

Os macacos nas artes decorativas

O macaco, mamífero quadrúmano da ordem dos primatas é um dos mais inteligentes animais da Criação. Lembramos, por exemplo, os célebres macacos do Jingoro, no templo de Nikko, um dos quais tapa os ouvidos, o segundo, os olhos, e o terceiro a boca, pois são a expressão da sabedoria e em consequência da felicidade.

 

Nesta pequena colecção a que tivemos acesso, há dois conjuntos de macacos com os três atributos da sabedoria “não ver, não ouvir e não falar”.

 

O papel reservado ao macaco, na simbologia egípcia, é o patrono dos sábios e letrados. É ao mesmo tempo artista, amigo da natureza “especialmente das flores”, mágico poderoso ao ponto de ler os mais misteriosos hieroglifos e simultaneamente psicopombo . Rege as horas e calendário por é senhor do tempo. Mas tal como Baba, o macho entre os babuínos, é brigão, lubrico e sujo.

 

Outrora julgava-se que o cinocéfalo tinha impressionado os egípcios; levantando colericamente a cauda. Julgava-se que o cinocéfalo, que se ouvir gritar de madrugada, ajudava com as suas preces o Sol a levantar-se todas as manhãs, no horizonte do mundo. Na Babilónia do Egipto, o babuíno caloroso era a imagem do próprio Sol, um febo simiesco que manejava o arco e a flecha.

 

O hábito que certas espécies de macacos têm, em se reunirem numa assembleia geral e tagarelarem ruidosamente um pouco antes do nascer e do pôr Sol, justifica o facto de os egípcios terem entregue aos macacos a missão de saudar o astro rei todas as manhãs e todas as tardes, quando este aparece no Oriente ou quando o oculta no Ocidente. A propósito sugerimos a experiência de ir até ao Jardim Zoológico de Lisboa e ter a paciência de ficar diante da aldeia dos macacos a observar, com ar de quem não está a ver nada e aguardar a hora em que o Sol caí para ver como os macacos se reúnem amigavelmente. No entanto é preciso paciência e saber esperar.

 

Para os Aztecas e para os Maias, o simbolismo do macaco é de certa forma de obstrução. As pessoas nascidas sobre o signo do macaco têm tendências para certas artes, a saber: cantores, oradores, escritores, escultores ou então com mãos hábeis e jeito para o artesanato. Sahajun esclareceu que, para os aztecas eles têm bom temperamento, são felizes e amados por todos.

 

A pictografia Maia apresenta a associação macaco-Sol: o Sol como patrono do canto e da música, chamado príncipe das flores é frequentemente representado sob a forma de macaco. A palavra macaco é utilizada como título honorífico, significa homem prudente ou engenhoso.

 

O mesmo macaco também tem um carácter sexual: símbolo de temperamento ardente. Porém em vários Códices, o macaco também é representado como um gémeo do deus da morte e da meia-noite; o fundo da noite é representado por uma cabeça de macaco acompanhada por uma imagem de Vénus e da Lua. Representa o Céu nocturno, e simboliza tudo o que é sacrificado, madrugada, para o regresso do Sol.

 

No zodíaco chinês o macaco rege o signo do Sagitário.

No Japão os costumes defendem que durante um casamento se deve evitar a palavra macaco, já que se poderia correr o risco de provocar a fuga da noiva.

 

Mas, em contrapartida, pensa-se que o macaco afasta os maus espíritos; é por isso que se dá às crianças bonecos que representam macacos.

 

Os macacos também se oferecem às mulheres grávidas para lhe facilitarem o parto.

 

Na Índia há quem afirme que o macaco simboliza a alma. Como a signatária foi visitar um templo na Índia e se viu rodeada de macacos, nem quer acreditar que teve tantas almas à sua volta. Um facto curioso dessa visita foi assistir aos que tinham a paciência de ir montados num elefante.

 

Muitíssimas referências sobre macacos insistem no perigo que é para o homem rir-se das farsas destes animais. Pela minha parte confesso que tive muito receio que me ficassem com a mala onde tinha o dinheiro e os documentos, pois vários tentaram ficar com recordações dos visitantes.

 

Para os egípcios, as almas do outro mundo, devem evitar os macacos que nos tolhem os movimentos.

 

O macaco, bandido das estradas, aventureiro bem humorado que irrita; mas que desarma com as suas brincadeiras é ilustrado pelo mito grego dos Cercopes parentes pobres dos Trickster, herói mitológico Vinebago.

 

Em resumo talvez a síntese destas tradições, ao mesmo tempo contraditórias e homogéneas se encontre a interpretação que faz do macaco o símbolo das actividades do inconsciente. Daí que haja quem se apaixone por coleccionar macacos de todos os materiais. Daí, também, que temos uma grande simpatia por estes animais, sempre enjaulados, porque nunca casa de habitação seria uma calamidade. Nós, apreciamos a conservação. Somos de manter os patrimónios de todas as espécies no melhor estado de conservação, mas também temos um grande apreço pelo mundo animal.

 

Marionela Gusmão