Casas Portuguesas I Jardim José do Canto

Palácio José do Canto

Maria da Graça de Athayde retratada por Henrique Medina

Retrato de antepassado

Maria da Graça de Athayde seu filho, nora, e netos Augusto, Duarte e Luísa

Óleo de Luís Bernardo de Athayde

Aspecto da colecção de pintuda da família Athayde

Augusto Athayde junto de uma escultura de José do Canto

Augusto de Athayde ao lado de aguarela da sua casa açoriana

A propriedade, uma das mais relevantes de Ponta Delgada, encontra-se na posse da família Athayde desde o século XV, tendo acolhido ao longos dos tempos inúmeras visitas ilustres, caso dos reis D. Carlos e D. Amélia, dos presidentes Franklin Roosevelt dos Estados Unidos, de Óscar Carmona, Mário Soares, Jorge Sampaio e Marcelo Rebelo de Sousa, dos príncipes Alberto do Mónaco e Maria Gabriela de Saboia, e de D. Humberto de Medeiros, Cardeal de Bóston, natural dos Açores; caso dos escritores Raul Brandão, Júlio de Castilho, Jorge Amado, Alçada Baptista, Eduardo Lourenço e Agustina Bessa-Luís (cuja casa lhe inspirou o romance O Concerto dos Flamengos), dos pintores Gracinda Candeias, Graça Morais, Noronha da Costa e Nuno de Siqueira, da cantora de ópera IIeana Cotrubas, do violinista Sandorwegh, entre outros, que actuaram no Festival de Música dos Açores.

O jardim envolvente, actualmente com seis hectares, foi mandado plantar entre 1846 e 1898 por José do Canto. Ao morrer, este deixou mais de seis mil espécies botânicas. Deixou, também, uma das maiores camonianas – hoje na Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Ponta Delgada.

Maria da Graça e Augusto de Athayde mandaram construir, na propriedade herdada, uma casa em estilo neo-clássico. É de assinalar a riqueza das cantarias (no exterior) e a beleza dos tectos entalhados (no interior).

Galeria de arte

No corredor central estão representados os principais pintores e escultores de São Miguel. Desde Marciano Henriques da Silva, passando por Domingos Rebello, Vítor Câmara, Duarte Maya, Luís Bernardo de Athayde, Machado da Luz, Luísa Athayde, Canto da Maya, Borba Vieira, Âmbar, Urbano, entre outros.

As salas vastas e imponentes guardam um vasto espólio famíliar.

Podem observar-se desde uma extensa galeria de retratos de família, mobiliário antigo, instrumentos musicais, porcelanas e têxteis.

A biblioteca, fruto de acumulação de inúmeros acervos, marca um espaço e uma vivência.

A casa, construída entre 1938 a 1958, foi inteiramente executada por artistas de São Miguel, e nela foram apenas utilizados materiais tradicionais.

Do projecto original foi edificado um terço, mas tem cerca de 1000 metros.

A casa lembra um palácio da Toscânia, sendo considerada o último palácio edificado no chamado estilo palladio, um celebre arquitecto da Renascença.

Novos tempos

Na actualidade o Jardim José do Canto está aberto ao turismo porque, não tendo quaisquer subsídio, salvo a isenção do IMI que resulta da sua classificação como imóvel de interesse público.

Há 30 anos foram abertos 14 quartos com casa de banho que ocupam todo o rés-do-chão da casa. Isso acompanhado com o cedência de espaços para festas. Tratou-se de encontrar uma maneira de aguentar o Jardim. Os lucros da sua exploração são investidos na manutenção do Jardim.

A propriedade é detida pela Fundação José do Canto, sendo administrada por Augusto de Athayde e sua família, que, vivendo em Lisboa, continuam a tradição de servir os Açores e manter a ancestral casa famíliar.

Grandes figuras

Nascida em Sintra, Maria da Graça Hintze Ribeiro de Athayde, mãe de Augusto de Athayde, tornou-se uma referência na literatura portuguesa.

Escreveu, entre outros títulos, Leonel, poema dramático, Espaço para Alguns, (Prémio Nacional de Teatro, 1961), Uma Vida Qualquer, memórias em três volumes. Nestas aborda, com grande elegância, encontros invulgares (o primeiro marido de Christine Garnier disse-lhe que se divorciara porque a mulher se tornara íntima de Salazar), viagens inesquecíveis (Paris, Praga, Caracas, Macau, Londres, Rio de Janeiro, etc) e reflexões profundas sobre a vida.

Em quase todas as suas obras São Miguel, terra da sua avó materna e marido, é uma presença constante. Na ilha conheceu o marido, Augusto de Athayde, com quem casou em 1938, fixando-se em Ponta Delgada, onde viveu, dizia, “os anos mais felizes” da sua vida.´

Os negócios do marido obrigam-na a fixar-se em Lisboa em 1951, passando a habitar o Palácio Quintela, na Rua do Alecrim, onde existiram boas colecções. No interior destacavam-se tapeçarias flamengas, quadros de Columbano, móveis D. José, espelhos de Veneza, porcelanas da Companhia das Índias, pratas de Odiot.

O marido era um empresário extremamente empreendedor que inicialmente alcançou grandes sucessos. Com o correr do tempo os negócios, porém, correram mal e o casal viu - se obrigado a desfazer-se de quase todo o património. Só o Jardim José do Canto, em Ponta Delgada, foi salvo.

“Vivi em ambientes de grandeza fora do comum, de simplicidade, de dificuldades, de quase miséria, de equilíbrio mais ou menos recuperado...”, confessa a escritora.

Maria da Graça de Athayde manteve, nos anos 60, um programa na RTP intitulado Quem somos nós, dedicado à reflexão sobre problemas da vida quotidiana. Na década de 70 fixa-se no Rio de Janeiro. Regressada em 1982 passa a residir em Lisboa.

A doença não a impede de continuar activa e interveniente. Escreve e lê várias horas por dia, todos os dias. Passa sempre o mês de Agosto em São Miguel, nos Açores, onde, comentava, “adoro rever familiares e amigos”. Ultimava, antes de falecer em Abril de 2001, aos 97 anos, a edição simultânea de três novelas policiais, agora publicadas pela Editora Sopa de Letras, sob o título Três Mistérios.

Deixou diversos inéditos o romance Não há Morte (escrito em inglês) e diversas peças de teatro, entre as quais Depois do Fim.

O filho, Augusto de Athayde, dividiu toda a vida o tempo entre o continente e o arquipélago, nutrindo por ele uma afeição e um orgulho irreprimíveis. “Não posso deixar de sentir”, diz-nos numa entrevista em 2003, “uma grande grande alegria ao contemplar, aos 62 anos, a profunda transformação da minha terra”.

Vivia em Lisboa, num palacete no Bairro Alto onde a presença açoriana era uma constante. O átrio encontram-se de telas de Luís Bernardo de Athayde, seu avô. “Se tivesse saída da ilha, após o curso de Direito em Coimbra, hoje sera um grande pintor mas nunca quis. Dedicou-se à pintura, à organização das secções de arte e etnografia do Museu Carlos Machado e a estudos sobre a arte e as tradições açorianas”, comentou-nos.

A sala principal podiam ver – se óleos representando Maria da Graça de Athayde, sua mãe (notável escritora, romancista e dramaturga), e António de Brum, seu 12º avó, que viveu no século XVI.

Observavam-se, ainda, óleos e aguarelas de casas e igrejas às quais a família tem estado ligada ao longo de gerações. Desde os palácios Valenças em Sintra, Pau da Bandeira em Lisboa, Convento de Belém e Jardim José do Canto em Ponta Delgada.

Augusto de Athayde falava com visível entusiasmo da sua casa açoriana, localizada no interior de um parque botânico, em São Miguel.

Doutor em Direito, Augusto de Athayde, professor universitário, trabalhou durante décadas em diversos bancos e empenhou-se em múltiplas actividades culturais.

“Toda a vida senti uma grande ligação aos Açores. Isso deveu-se à circunstância de nunca, em qualquer outro lugar me ter sentido verdadeiramente em casa. Os meus primeiros anos vividos em São Miguel foram muito importantes. Casei com uma micaelense. Os meus filhos desde muito pequenos sentiram-se também muito ligados a São Miguel. Mil e uma razões para que a ligação à ilha se tivesse tornado um elemento fundamental na minha vida”.

Augusto de Athayde sonhava com o regresso a São Miguel, mas um ataque cardíaco, em 2014, coloca um ponto final na sua vida.

“Conto os dias (muitos infelizmente) que faltam para me reformar e fixar no Jardim José do Canto! Tenho nele à minha espera livros para ler nos próximos 100 anos...”.

Marionela Gusmão e António Brás