Palácio da Brejoeira I O último solar português

Palácio da Brejoeira. Fachada principal neoclássica

Palácio da Brejoeira. Entrada principal para o palácio e os jardins.

Palácio da Brejoeira. Vista parcial da escadaria nobre.

Palácio da Brejoeira. Vista frontal da escadaria nobre.

Palácio da Brejoeira. Sala de Jantar

Palácio da Brejoeira. Sala do Trono

Palácio da Brejoeira. Salão nobre.

Palácio da Brejoeira. Biblioteca

Palácio da Brejoeira. Teatro

Palácio da Brejoeira. Vista parcial do jardim

Palácio da Brejoeira. Avenida das Tilias.

O Palácio da Brejoeira, edificado entre 1805 e 1834, foi a derradeira casa nobre construída no antigo regime. 

Localizada a seis quilómetros de Monção, a antiga Quinta de Vale da Rosa possui 18 hectares de vinha e 12 de parques e jardins.

Ao longo dos últimos 200 anos, a propriedade conheceu três famílias que a engrandeceram e notabilizaram.

O Solar da Brejoeira foi edificado por Luís Pereira Velho de Moscoso, descendente de velhas famílias fidalgas minhotas, casado com uma senhora com grande fortuna. 

O autor do projecto, de notável qualidade, é desconhecido, mas a influência da arquitectura neoclássica do Palácio da Ajuda revela-se avassaladora.

A construção deve-se a mestre Domingos Pereira, as pinturas decorativas a mestre Clemente e ao seu colaborador Julian Martinez.

O palácio desenvolve-se numa planta em L, possuindo duas alas e três torreões, profusamente ornamentado com cantarias em granito. 

As obras terão orçado em 400 contos, verba fabulosa na época, mas o projecto inicial com quatro alas e quatro torreões nunca foi concluído. 

O exterior é constituído por jardins e terrenos agrícolas, dada a abundância de água e a fertilidade das terras.

O filho do construtor, Simão Velho de Moscoso, manteve uma autêntica corte. Durante décadas, a Brejoeira conheceu um ambiente feérico de festas e recepções. “Neste palácio cantava-se e dançava-se até altas horas da madrugada. Quem chegava era convidado a permanecer, sem data de partir”, conta Cláudia Fernandes, relações públicas da quinta. 


No “Minho Pitoresco” José Augusto Vieira escreve que “nos salões vastos cantou-se, dançou-se e fez-se música. Só quando a noite chegava é que deixávamos o palácio”. A Brejoeira tornou-se “um canto do Paraíso onde”, pormenoriza, “se comia e bebia-se bem. As sombras dos jardins eram frescas, os lagos tranquilos, os parques deliciosos! Mais deliciosa ainda era a boémia do dono da casa!”.

Desse tempo é o quarto real em estilo Império. Dois monarcas, D. João VI e D. Manuel II, foram convidados para pernoitar nele. Da Casa de Bragança D. Afonso, irmão de D. Carlos, dormiu lá em Junho de 1910.

Simão Velho de Moscoso morre em 1881. A Quinta da Brejoeira é herdada pelas famílias Caldas e Palmeirim de Lisboa. O velho palácio é despojado de todo o recheio e fechado. Nas duas décadas seguintes, o Palácio da Brejoeira conhece uma forte degradação. 

Serviço da China

Do acervo destacavam-se tradicionais retratos de família, hoje na Pousada de Santa Marinha da Costa, pinturas atribuídas a Grão Vasco e a Van Dyck com paradeiro desconhecido, e uma enorme baixela da Companhia das Índias. Esta ficou para a família Caldas que a manteve durante décadas no palácio de Lisboa, hoje sede do CDS. 

O serviço foi herdado pelo Marquês de Mendia actual representante da casa Pereira Velho de Moscoso, por herança de sua bisavó Catarina Rita. A baixela tem o brasão de Moscoso envolto numa rica decoração em tons de “rouge de fer” dourado em tons de rosa. Em 2010 foi dispersa no leilão do recheio do Palácio Mendia, em Lisboa.

Renascimento

A Quinta da Brejoeira foi colocada em hasta pública em 1901 por 16 contos. O conselheiro Pedro Maria de Fonseca Araújo, empresário e presidente da Associação Comercial do Porto, comprou-a iniciando obras dirigidas pelos arquitectos Ventura Terra e Marques da Silva. 

No interior, restaurou os tectos de madeira e estuque, refez os parquets, decorou as paredes dos salões com tecidos e papéis pintados, mobiliário de estilo, retratos reais, cerâmicas, tapetes orientais e enormes lustres. Foi edificado um teatro com 50 lugares, um jardim de Inverno dominado por um busto em bronze de D. Manuel II e a Capela de São Sebastião recebeu um altar-mor em estilo neoclássico. O átrio e a escadaria foram revestidos com azulejos baseados na mitologia grega, da autoria de Jorge Pinto.  Em 1910 foi dotado de electricidade e de telégrafo. 

A quinta, murada, contem o portão principal, o jardim frontal, o bosque e espécies exóticas de árvores. Foi criado um grande lago denominado Ilha dos Amores.

A propriedade tornou-se uma residência de campo, de clara influência inglesa, embora a sua rentabilidade fosse modesta.

O conselheiro recebeu em 1910 o título de Marquês da Brejoeira em reconhecimento da casa-real pelo seu trabalho. A implantação da República impossibilitou-lhe o uso do título, cujas armas podem ser observadas na lareira da Sala de Jantar.

A Brejoeira conhece de novo um período de festas e recepções que duram de 1903 a 1920. O “crash” da bolsa de Nova Iorque arruinou a família de Pedro Maria de Fonseca Araújo. Este morreu em 1922, a mulher em 1925, e o filho mais novo no ano seguinte. A propriedade entrou num período de apagamento e num acentuado declínio. A sua manutenção revela-se complexa. O valioso recheio foi objecto de diversos arrestos judiciais. Em 1937 foi vendida em hasta pública por 850 contos.

Vinho da Brejoeira

O novo proprietário, Comendador Francisco de Oliveira Paes, ofereceu a quinta a sua filha Maria Hermínia de Oliveira Paes.

Um novo período abriu-se na sua história. Obras de fundo foram efectuadas na casa e nos terrenos envolventes. A decoração recebeu mobiliário de estilo, retratos da dinastia de Bragança, lustres e carpetes orientais. 

Em 1962 o comendador entrou em falência e, novamente, a Quinta é levada a hasta pública. A filha, Maria Hermínia de Oliveira Paes, arremata-a por 1055 contos. Em 1964 planta os primeiros hectares de vinha Alvarinho, com o apoio do engenheiro agrónomo Amândio Galhano.

Na década seguinte é edificada a adega e dois anos depois o vinho passa a ser comercializado, com êxito, sob o nome de “Palácio da Brejoeira, Alvarinho”.

A proprietária, sua grande representante, habita a ala esquerda do palácio até morrer, em 2015, aos 97 anos. 

 Os visitantes são, entretanto, inúmeros, destacando-se Salazar e Franco que se reúnem nos seus salões, bem como o príncipe Eduardo de Inglaterra que é ali homenageado com um banquete.

Salazar tem a ideia de adquirir a Brejoeira e transformá-la em residência-oficial de D. Duarte Nuno, pai do actual Duque de Bragança, nos Anos 50.

A sua abertura ao público, em 2010, motivada para gerar receitas torna-se um êxito. Apesar disso foi posta à venda em 2818 por 26 milhões de euros, na sequência de partilhas entre os primos de Hermínia Paes e os herdeiros de Feliciano dos Anjos Pereira, seu companheiro durante décadas.

O palácio com os seus salões um pouco tristes revela-se um exemplar único entre nós.

António Brás