Casa de Cedovim I Importante Solar Barroco caminha para a ruína

O Solar de Nossa Senhora da Conceição, em Cedovim, um dos mais importantes exemplares da arquitectura barroca portuguesa, encontra-se em forte degradação.

 

Localizado numa aldeia de Vila Nova de Foz Côa, a denominada Casa das Fidalgas, vai-se degradando ano após ano. A sua recuperação, anunciada nos Anos 90, para turismo de habitação nunca foi concretizada. Apenas se pintaram as fachadas e se arranjou o telhado da ala esquerda. 

 

No palácio destacam-se as cantarias em granito, a escadaria monumental com balaustrada e vasos em pedra  e os  tectos pintados com motivos vegetalistas nos 10 salões do andar nobre. A área total é de 1500 metros. Encontra-se classificado de interesse público desde 1977.

 

O último membro da família a habitar o velho solar foi Leonilde Maria José Peixoto Teixeira de Aguilar que, obstinadamente, recusou abandoná-lo. Na companhia da mãe e das irmãs habitou, após a morte do pai, em 1945, na ala esquerda da mansão, enquanto na outra os telhados abatiam, os salões ficavam destroçados, as janelas e portas apodreciam. 

 

A ruína provocava-lhe uma dor intensa. Lutou com todas as forças para travar o fim do solar, tentando, sem êxito, abri-lo ao turismo de habitação. À minha mãe, sua parente que a visitava anualmente, dizia-lhe com lágrimas que haveria de “aguentar o que o pai lhe deixou”.

 

Após a morte das irmãs Judite e Selina, Dona Leonilde vive na companhia de Teodolinda Pereira, dedicada servidora, que conhecia desde criança os cantos da casa, quando levava a merenda ao seu pai, um dos muitos empregados da família. 

“Ainda me lembro de aqui trabalhar muita gente, havia até um homem que durante todo o dia carregava água num burro, recorda. “A família podia ir de Cedovim a Sebadelhe (aldeia que fica a alguns quilómetros) sempre por terras que eram deles”.

 

As partilhas nas duas últimas gerações provocaram a dispersão de um vasto património e a divisão do histórico solar. Da vasta fortuna destacavam-se as quintas de Cedovim, Castro Daire, Braga, Sarzedinho e a Casa de São Luís, no Porto.

 

A velha senhora faleceu em 2001, aos 82 anos, na casa que a viu nascer. 

 

Dona Leonilde preservou até ao fim um valioso acervo. Os salões decadentes da ala esquerda guardavam móveis em pau-santo, retratos a óleo, uma liteira setecentista, uma imagem gótica de Nossa Senhora da Conceição (outrora na capela da família Aguilar na Igreja Matriz de Cedovim) duas espadas inglesas de Sir William Cole e uma considerável biblioteca.

 

O solar, com os 16 hectares anexos com vinha, olival e amendoeiras, é colocado no mercado imobiliário, dado ser propriedade de nove herdeiros, sobrinhos de Dona Leonilde, sem meios para o preservarem. Passados quase 20 anos a sua transacção mostra-se complexa, o valor desceu para os 880 mil euros. 

 

A ruína que se aproxima, apenas houve uma ligeira intervenção no telhado, simboliza o fim dos Aguilar, outrora uma das famílias mais relevantes da região.

 

Libertadores ingleses

No início do século XIX, em 1813, no Solar dos Aguilar, em Cedovim, uma aldeia nas proximidades de Vila Nova de Foz Côa, vive-se uma grande agitação: a família acolhe os libertadores ingleses após as invasões napoleónicas. A filha dos proprietários e um tenente britânico apaixonam-se. Os pais apercebem-se e opõem-se.

 

Os dois trocam cartas secretas. A fuga surge-lhes como única alternativa. Numa noite, é lançada uma escada ao quarto de Ana Ludovina, que desce e cai nos braços de Waldron Kelly. Os dois casam-se na Igreja de Castelo Rodrigo e refugiam-se na Irlanda onde têm sete filhos. Imigrado para a Jamaica Kelly desaparece dramaticamente. 

Ana Kelly visita fugazmente o Porto em 1858, obtendo do irmão uma pensão. Regressada a Dublin, dedica-se à família, morrendo em 1883.

 

O quarto de Ana Kelly, com a janela por onde fugiu (emparedada) está em derrocada.

 

A junta de freguesia local e o município de Foz Côa não têm meios para preservar o histórico solar, diversos investidores têm vindo a desistir, o futuro mostra-se incerto e a ruína avança sobre o casa que neste milénio completou três séculos da sua edificação.

António Brás