Casas de amores invulgares

Pedro e Inês de Castro

Soror Mariana e Cavaleiro de Chamily

D. João V e Madre Teresa

Conde de Vimioso e Severa

Sá Carneiro e Snu

Ao longo do País abundam locais que foram palco de amores invulgares e desmesurados ao longo dos séculos. Conhecê-los nos seus cenários reais torna-se uma viagem de impressionante melancolia. Este artigo é um roteiro dessas paixões.

A mais lendária decorreu na Quinta das Lágrimas (actualmente um hotel de charme), em Coimbra, e teve como protagonistas Pedro e Inês. O seu desfecho tornou-os símbolos de uma mitologia intemporal – mitologia que contempla relações como as de Mariana Alcoforado pelo cavaleiro de Chamilly, no Convento da Conceição (Museu Regional) de Beja; a de D. João V e de Madre Paula no Palácio Galvão Mexia (Museu da Cidade) de Lisboa; a de Camilo Castelo Branco, na Quinta de São Miguel de Seide (casa-museu) em Famalicão; a de Francisco Sá Carneiro, num duplex da Rua D. João V, em Lisboa.

 

Convívio e exuberância

As festas dadas pela Marquesa de Jácome Correia no seu Palácio de Santa Rita, em São Miguel, tornaram-se famosas nos anos 60 e 70 do século passado. A anfitriã apreciava a cultura, o convívio, a exuberância, a originalidade. Numa dessas recepções conheceu Vitorino Nemésio. Ele com72 anos, ela 54 primaveras. Margarida Victória levara uma vida lendária, divorciando-se três vezes depois de uma adolescência complexa.

O escritor, com vários filhos e um quotidiano tranquilo,  descobre-lhe afinidades profundas. Apaixonam-se, não escondendo dos outros os seus sentimentos. Nemésio, que vive em Lisboa, desloca-se assiduamente a São Miguel, alojando-se na casa da marquesa. 

O desaparecimento do poeta em 1978, afecta-a profundamente, ao mesmo tempo que se arruina. Vende as terras, as obras de arte, as jóias e a Casa de Santa Rita onde passara, com o autor de “Mau Tempo no Canal”, os melhores momentos da sua vida. 

Afasta-se e vive discretamente nos seus pequenos apartamentos de Lisboa e Ponta Delgada; dedica – se, então, a escrever a sua biografia. 

Pouco antes de desaparecer, em 1996, Margarida Jácome Correia confidencia a amigos que o mundo acabou para si com a perda de Vitorino. “Quando ele desapareceu é que eu compreendi a sua falta  irremediável. A minha vida modificou-se por completo. Hoje, o que me faz continuar são todas estas memórias”- memórias que são, na verdade, surpreendentes e inesquecíveis.

Nelas, em tom confessional, pontuado por revelações, viagens, personalidades, incidentes, aventuras, revezes, Margarida Jácome Correia revela com ironia por vezes irrecusável aspectos cativantes da sua vida, e das figuras que evoca. 

O tema dominante é, porém, a paixão que ela e o escritor mantiveram durante anos. “O homem que mais marcou a minha vida foi, sem sombra de dúvida”, exclamará: “Vitorino Nemésio. Apesar de ter recordações maravilhosas de outros, teve sempre manifestações de ternura, interesse e admiração, tudo o que uma mulher pode desejar”.

 

Bichinho de conta

Numa das maiores quintas do sul do País, a do Calhariz, em Sesimbra, ocorre em 1779  o enlace de Isabel Paim e Alexandre Sousa Holstein  Beck. Foi o culminar de um dramático namoro iniciado 20 anos antes. Durante esse período, ela tinha sido obrigado a casar com o segundo filho do Marquês de Pombal. A jovem recusou, porém, a vida conjugal e obteve do Papa a anulação do matrimónio. É, no entanto, obrigada pelo ministro de Rei  D. José, que a alcunhara de “bichinho de conta”, a recolher-se perpetuamente no Convento de Chelas. Só após a queda do velho governante, Isabel Paim recupera a liberdade e consorcia-se com Alexandre Holstein com quem passa a viver no palácio de Sesimbra. A sua relação dura 14 anos, ao longo dos quais nasceram vários filhos, um dos quais o Duque de Palmela que se destacaria na diplomacia.

O palácio da Quinta do Calhariz, que os acolheu, hoje na posse do VII Duque de Palmela, mantém os interiores bem conservados. Propriedade das mais antigas e históricas do País, encontra-se aberto ao turismo – numa surpreendente visita ao passado.

 

Libertadores ingleses

No início do século XIX, em 1813, no Solar dos Aguilar, em Cedovim, nas proximidades de Vila Nova de Fozcôa, vive-se uma grande agitação: a família, das mais poderosas da região, acolhe os libertadores ingleses após as invasões napoleónicas. A filha dos proprietários e um tenente britânico apaixonam-se. Os pais apercebem-se e opõem-se.

Os dois trocam cartas secretas. A fuga surge-lhes como única alternativa. Em certa noite, é lançada uma escada ao quarto de Ana Ludovina, que desce e cai nos braços de Waldron Kelly. Os dois casam-se na Igreja de Castelo Rodrigo e refugiam-se na Irlanda, onde têm sete filhos. Imigrado para a Jamaica Kelly  desaparece dramaticammente. 

Ana Kelly visita fugazmente o Porto em 1858, obtendo do irmão uma pensão. Regressada a Dublin, dedica-se à família, morrendo em 1883.

O Solar dos Aguilar, relevante exemplar da arquitectura barroca, aonde tudo se iniciou, encontra-se no mercado imobiliário, dado ser propriedade de dezenas de herdeiros sem meios para o preservarem. Os seus salões, algo decadentes, ostentam móveis em pau-santo, retratos a óleo, liteiras e uma considerável biblioteca. O quarto de Ana Kelly, com a janela por onde fugiu (emparedada) está em derrocada.

A Casa de Nossa Senhora da Conceição, importante exemplar da nossa arquitectura barroca, simboliza o fim dos Aguilar, outrora proprietários de vastas terras. O último membro da família a habitar o velho palácio foi Leonilde Teixeira de Aguilar que, obstinadamente, recusou abandoná-lo. Na companhia das irmãs habitou, após a morte do pai em 1945, na ala esquerda da mansão, enquanto na outra os telhados abatiam, os salões ficavam destroçados, as janelas e portas apodreciam. 

A ruína provocava-lhe uma dor intensa. Lutou com todas as forças para travar o fim do solar, tentando, sem êxito, abri-lo ao turismo de habitação. A minha mãe, sua parente que a visitava anualmente, dizia com lágrimas que haveria de “aguentar o que o pai lhe deixou”.

Leonilde Aguilar desaparece em 2001, aos 82 anos, na casa que a viu nascer. 

 

A fadista e o Conde

No Campo Grande, em Lisboa, ergue-se o Palácio Vimioso, cujos salões com frescos reproduzindo as florestas do Brasil são, certa noite, palco de uma invulgar recepção: o dono da casa, Francisco de Castro, convida vários amigos para ouvirem fados. A protagonista é Maria Onofriana, conhecida por Severa, por quem o Conde de Vimioso, D. Francisco de Paula de Portugal e Castro, se apaixonara em 1846. Vibrante e nostálgica, ela emocionará toda a assistência. O nobre e a artista, que dão largas ao seu amor, haviam-se conhecido numa taberna da Mouraria. Na época o fado estava restrito aos bairros pobres de Lisboa. Severa tornara-se conhecida pela sua voz e pela sua beleza. Atraído, o conde não descansou enquanto não a teve, para escândalo da família, nos seus braços e na sua vida. Ciumento, não autorizava a amada a sair de casa, nem a visitar o meio onde nascera. Ela não aceita o seu comportamento e separou-se dele. Dois anos depois morre.

O palácio do Campo Grande, denominado sucessivamente  em 1700 de Valença, em 1800 de Vimioso e , em 1900, de Pinto da Cunha, é agora um polo da Universidade Lusófona que preservou as suas características. As salas mantêm os frescos originais, iluminadas (até ser vendido pelos derradeiros habitantes) por lustres a velas, e decoradas com inúmeros móveis e pinturas dos séculos XVIII e XIX.

 

Tragédia grega

Ao desaparecer em Setembro de 2002, com 99 anos, Maria Inês, filha do Presidente Óscar Carmona vivia em Lisboa entre melancolias e penumbras, acompanhada por uma empregada. Todos os dias saía. Todos os anos almoçava no regimento a que o pai pertenceu. Ver recolocada no Campo Grande, onde estivera, a estátua do pai era o maior sonho que lhe restara.

Quando era embaixatriz em Roma, em 1942, apaixonou-se pelo Duque Fulco Dusmet de Smours – originando uma das relações mais comentadas, então, em Portugal e Itália. Um terramoto abateu-se, entretanto, sobre a sua vida: o filho é-lhe retirado, a monarquia italiana cai, parte da sua família recusa-se a recebe-la em Portugal.

Os dois apaixonados refazem o destino comum em Madrid onde casam numa discreta cerimónia religiosa – dado terem obtido do Vaticano a anulação dos anteriores matrimónios. Pouco depois fixam-se definitivamente em Lisboa. “Esse foi um período maravilhoso, o melhor de toda a minha existência”, confidenciará a minha avó, sua velha amiga de muitas décadas. 

O marido (ajudante de campo do Rei Humberto de Itália, exilado em Cascais) desaparece em 1956. Será o acelerar de sucessivos infortúnios. A filha Menez e três dos netos desaparecem inesperadamente.

A duquesa habitou nos últimos anos num apartamento de quatro divisões, na Praça do Areeiro, em Lisboa - onde decorrera o grande amor da sua vida. As recordações enchiam-lhe a casa. Na entrada sobressaía um quadro com o brasão ducal, nas salas fotografias por cima dos móveis italianos, nas paredes óleos de família com destaque para o retrato do marido.  

 

Paixão Bordaliana

Durante mais de um século, os inúmeros biógrafos de Rafael Bordalo Pinheiro foram muitíssimos discretos sobre a grande paixão do genial pintor e Maria Visconti, uma promissora actriz italiana. A investigadora Isabel Castanheira conseguiu descobrir esse amor secreto, tendo publicado o livro Una Piccola Storia d’Amore.

A paixão durou longos anos, desenvolvendo-se entre Lisboa, Caldas da Rainha e Paris. Os dois viveram juntos durante a longa montagem do pavilhão português na Exposição Mundial da capital francesa.

Maria Visconti conheceu Lisboa em 1881 onde actuou no Teatro da Trindade; Rafael desenha-a nas páginas do jornal satírico “O António Maria” com a legenda “bonito presente que Francisco Palha recebeu de Itália”.

Ao longo dos anos seguintes, Maria Visconti é inúmeras vezes retratada por Rafael, quer em faianças, quer em desenhos. Esses momentos felizes são imortalizados num par de gatos branco e preto abraçados na elegante cerâmica denominada de “Romeo e Julieta”. Outra representação sua encontra-se nos belíssimos pratos com o busto da actriz, destacando-se, ainda, um elegante busto onde ela nos aparece radiosa.

O amor proibido é percorrido em magníficos desenhos desde os momentos felizes até ao leito da morte de Maria Visconti em 1899. José-Augusto França escreve que 1899 foi, para Bordalo, “o fim de tudo, que foi também, sem dúvida, para ele, o fim de muita coisa de si próprio”.

Rafael desaparece em 1905, repousando num jazigo de um amigo no Cemitério dos Prazeres, curiosamente próximo do túmulo (hoje desaparecido) de Maria Visconti.

Hoje dessa paixão restam as cerâmicas, os desenhos, alguns objectos,  diversas cartas guardadas no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, e o chalé das Caldas da Rainha onde os dois artistas viveram secretamente o idílio.

 


O marquês e a escrivã

Outra paixão decorre, entretanto, numa quinta de Sintra: o Marquês Guy de Valle-Flor declara-se a Maria Natália Jeitosa, que lhe corresponde, depois de se terem conhecido num notário onde a jovem era escrivã. Os encontros sucedem-se. Ela confidencia-lhe a sua vida marcada pela pobreza. Ele ouve-a e confessa-lhe, por sua vez, o vazio do seu dia-a-dia. A sociedade lisboeta será, pouco depois, surpreendida com a ligação do marquês à modesta escriturária. Pacientemente, ele transforma a rapariguinha canhestra que conhecera, numa mulher requintadíssima. Ensina-a a apreciar a arte, a afirmar o gosto, a assumir-se como aristocrata. O casal faz-se presença assídua nas festas sociais, recebe muito na sua cada da Avenida da Liberdade, em Lisboa.  

Maria Natália vê no marido:  o pai, o amigo e o companheiro que lhe dá segurança e equilíbrio. O seu repentino desaparecimento, em 1983, leva-a a uma profunda depressão. Afasta-se da família e dos amigos, a vida fecha-se-lhe. Os problemas sucedem-se. Treze anos depois desaparece numa urbanização da margem sul. Restara-lhe o apoio da família Valle-Flor. 

O chalet da Quinta Valle Flor, em Sintra, com as janelas em cristal e os interiores luxuosamente decorados, outrora palco de ambientes feéricos, encontra-se hoje apagado. O mesmo sucede na maioria dos edifícios onde, ao longo dos tempos e do País, deflagraram paixões angulares no nosso imaginário.

 

António Brás

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