Educação I A Escola Pública transformou-se numa mentira?

A Escola Pública transformou-se e não parece que o saldo seja favorável. Há mesmo quem não hesite em afirmar que o cenário é mesmo muito desastroso. 

Sejamos claros: a Escola Pública não mudou de um dia para o outro. A sua transformação tem sido realizada num processo gradual e lento apesar de pautado pela ocorrência de ondas sísmicas que de quando em vez causam maiores convulsões e perplexidades. Ondas com um padrão de ocorrência previsível e cíclico porque é coincidente com a alteração da cor política de quem se senta no gabinete ministerial. O certo é que uma machadada aqui, um rasgão acolá, uma pincelada mais ali e o caminho insólito do esvaziamento do conceito nobre da Escola tem sido feito sob o olhar indiferente da sociedade.

É natural que visões diferentes do mundo se reflictam na política governativa, mas por vezes sente-se que a única motivação para a mudança é apenas o prazer de mudar o que o antecessor fez sem um escrutínio sério e, sobretudo, sem ouvir os protagonistas, profissionais que laboram no terreno. E a Educação não pode ser encarada como um campeonato de berlindes.

A Escola Pública tem assistido a um aniquilamento da sua alma. E quando o conceito puro que a deve forjar, o da formação de cidadãos críticos, honestos, comprometidos com o mundo, criativos, amantes do conhecimento e imbuídos de curiosidade, é vandalizado, o futuro passa a ficar em risco. Um futuro que começa pelo presente. 

 

É difícil encontrar o primeiro grande disparate imposto como paradigma nas escolas porque têm sido demasiados. Terá sido quando se começou a tratar mal os professores fazendo acreditar que vergastá-los era a garantia dos interesses dos alunos e famílias? Não restam dúvidas que o desprezo e a diabolização da classe docente, cultivada com tanto sadismo pelo ME, obrigou à fuga de muitos excelentes profissionais. E este facto devia ter provocado um alerta na sociedade portuguesa. Claro que ficaram no terreno muitos docentes de elevada estatura profissional, mas a Escola ressentiu-se da debandada.

Terá sido o constante chicote do ME a ser o princípio do desmoronamento ou terá sido quando se inundaram as escolas com procedimentos burocráticos? Procedimentos de fundamentação de toda e qualquer decisão, recolha de provas e evidências de tudo e de mais alguma coisa. Não estamos a defender a ausência de justificações e esclarecimentos, mas há limites até no mundo que Kafka desenhou. Hoje, vive-se o paradoxo de trabalhar mais na comprovação do que se faz no que de facto se faz, na maquilhagem de resultados fingindo que tudo é real, na perseguição de quem contesta um sistema eticamente muito questionável e isso devia-nos preocupar seriamente. Vive-se hoje uma época insana em que o preenchimento de grelhas e folhas de exel se tornou a espinha dorsal das escolas mais do que o enriquecimento académico e até a preparação de aulas. Há mais tempo perdido na elaboração de relatórios, uns para entidades exteriores à escola e outros para consumo interno no delírio de serem protegidas todas as tomadas de posição educativas, do que no acto lectivo e educativo.

A obsessão pelos objectivos quantificáveis é a face mais visível da introdução nas escolas da cultura empresarial. Uma cultura que levou à construção do mito de projectos que nada são e de fabulosas estratégias que, enroladas em léxico rebuscado, pretendem parecer novas quando nada mais são que velhas metodologias que sempre se implementaram sem necessidade de páginas preenchidas de um qualquer documento. O paradigma empresarial entrou nas escolas e foi o caos porque as escolas não são fábricas de pneus. Integrar na narrativa docente chavões como a quantificação percentual de objectivos de sucesso a alcançar é introduzir o veneno que aniquila os princípios nobres da Escola e o convite escancarado à mentira. Principalmente porque os chavões vieram de braço dado a um modelo de avaliação de desempenho docente que se sustenta em mecanismos invisíveis de compadrios e servilismo.


Interessa aos interesses imediatos dos “donos do mundo” terem escolas acéfalas pejadas de profissionais exauridos e rendidos à engrenagem estupidamente kafkiana em que a Escola Pública está mergulhada e com alunos mal preparados para o exercício filosófico de viver. A cereja no topo do bolo são os pais que confundem a escola com um saco de boxe e que encontram nos professores os alvos predilectos das suas dores. E a cereja sobre a cereja é a situação bizarra de escolas com turmas sobrelotadas que nem mesmo uma pandemia que restringe ajuntamentos e lotações de restaurantes e salas de concerto, conseguiu reverter. 

E por que razão falamos da enorme mentira política em que se transformou a Escola Pública numa altura em que se vive no olho do furacão de uma pandemia?

Bom, porque esta é uma época perigosa a vários níveis e não nos estamos a referir apenas ao epidemiológico. Por isso, os desafios que se colocam ao mundo em geral e ao nosso país em particular exigem mentes preparadas, atentas, criativas e com capacidade de ler além das linhas escritas e de ver para lá do visível.

Talvez fosse mais do que a altura de os pais exigirem da Escola não que esta seja o colinho dos meninos, como tem sido exigido por muitos ao longo de demasiado tempo, mas lugar de exigência sem medo, de rigor sem hesitação. Um espaço sagrado do conhecimento sem almofadas, de trabalho sério sem mentiras. A não ser que as famílias se confortem com a ideia de virem a ter adultos insuportavelmente preguiçosos e incapazes. E uma pessoa preguiçosa prefere sempre ser cegamente conduzida que desvendar o caminho por onde a querem levar.

 

Paula Timóteo

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