70 anos de reinadoIsabel II e Portugal

Isabel II e Salazar no Teatro de São Carlos

Chegado ao Montijo

Desembarque em Lisboa

Na tribuna de honra no Terreiro do Paço

Isabel II na Associação Comercial do Porto

Nas ruas do Porto

No Mosteiro de Alcobaça com o Duque de Edimburgo

Quando a monarca se deslocou a Portugal em 1957,  Salazar proporcionou-lhe a recepção a mais faustosa recepção que  teve no estrangeiro, ao longo de um reinado de, até agora, sete décadas. Paralelamente foi a visita mais grandiosa que o Estado português organizou. 

 

A Rainha chegou discretamente de avião à Base Aérea do Montijo a 16 de Fevereiro. Era a sua primeira deslocação a Portugal. 

A monarca - aguardada pelo marido que andara a visitar, durante quatro meses, a Austrália, a Nova Zelândia, as Malvinas, a Gambia e Gibraltar - viajou de Heathrow, em Londres, a bordo de um Viscont, com uma comitiva de 25 acompanhantes.

Quando o aparelho aterrou às 15h20, o príncipe Filipe subiu as escadas. Pouco depois o casal descia sorridente.

A chefe do Estado inglês foi recebida por representantes do governo português e por uma guarda-de-honra de 12 elementos. No exterior populares aclamavam-na.

 

Discretamente em Setúbal

A visita de Isabel II, organizada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiro português, pelo Foreign Office e pelo Palácio de Buckingham, demorou vários meses a ser preparada. 

Ainda se comenta hoje, nos meios diplomáticos nacionais, que terá sido a “visita do século.” 

A génese da deslocação de Isabel II foi, na perspectiva de Lisboa, reafirmar Portugal enquanto potência colonial e retirar o país de um crescente isolamento internacional - situação provocada pela venda de volfrâmio aos alemães durante a II Guerra Mundial e pela continuação do regime de Salazar.

Theotónio Pereira, embaixador em Londres, homem cosmopolita, elegante e culto, próximo da casa-real inglesa, desempenhou então um papel fundamental. 

Isabel II pretendia reencontrar-se em Portugal com o marido, um “desejo íntimo” nas palavras dos responsáveis do protocolo português.

O primeiro programa da visita previa a chegada de Isabel II ao Porto por avião, seguindo no dia seguinte no iate-real Britannia de Leixões para Lisboa. O embaixador escreveu que “podemos deixar tudo assim”. O protocolo inglês recusou, porém, essa hipótese.

A monarca insistiu em começar a visita privadamente, de maneira a ficar dois dias com o marido. A sua posição tornou-se irredutível.

 

Salvar as aparências

O protocolo português não escondeu um certo azedume; “Vê-se que a rainha insistiu e que os ingleses estudaram o caso a fundo. É ainda altura de salvar as aparências”.

Portugal cedeu aos preparativos feitos entre o Foreign Office, o Palácio de Buckingham e a representação diplomática inglesa em Lisboa.

Oficialmente o motivo era a retribuição da visita-de-estado que Craveiro Lopes efectuara em 1955 a Londres. Nessa ocasião o presidente e a mulher, Berta, foram calorosamente acolhidos em Buckingham. 

Salazar colocou à disposição da primeira-dama as jóias da coroa. O chefe-de-estado recusou, preferindo encomendar um conjunto de colar, brincos em ouro, prata, granadas, rubis e diamantes. 

Durante um almoço-oficial no Castelo de Windsor, a primeira-dama  teve uma forte enxaqueca e a monarca apercebeu-se e cedeu-lhe a sua suíte para descansar.

O embaixador António Pinto de Mesquita, recordava em 2010, aos 89 anos, que; "Salazar pôs um cuidado especial na visita, não pensava noutra coisa. A visita foi a coroação de todo um esforço diplomático, que permitiu a Salazar uma grande reaproximação à Inglaterra, que se tem mantido." 

A encenação da visita foi perfeita. A imprensa estrangeira, que o Ministério dos Negócios Estrangeiros convidou para ficar no Hotel Embaixador, fez relatos pormenorizados. 

A monarca, com 31 anos, era na época um alvo das revistas cor-de-rosa que consideram a visita a Portugal uma “segunda lua-de-mel”.

 

Madeira como aperitivo

Todos os aspectos da visita oficial são preparados de forma extremamente meticulosa. 

O Palácio de Buckingham informou que os banquetes deviam ter somente dois pratos, nada de pratos assados nem grandes misturas, e apenas uma sobremesa. 

Paralelamente o embaixador inglês Sir Charles Stirling dava dicas: “A rainha aprecia muito sardinhas portuguesas de lata”.

O embaixador Thetónio Pereira avisava: “Os ingleses não gostam de doces de ovos”, sublinhando que devem ser servidos Madeira como aperitivo, na refeição vinho branco e tinto, na sobremesa Porto, bem como nunca “misturar champanhe no Porto, estou farto de ouvir estrangeiros criticando as nossas comezainas e misturas de vinhos”.

Craveiro Lopes pretendeu oferecer à monarca um retrato de Eduardo Malta, célebre retratista da sociedade portuguesa. A rainha teria de posar entre oito a dez sessões. O pintor cobrava 100 contos, confessando que retratar Isabel II era a sua maior “ambição da sua vida de artista”, pondo mesmo a hipótese de nada receber. Tentaram-se inúmeras influências políticas e diplomáticas. O Palácio de Buckinhgham não cedeu.

A chefe-de-estado insistiu em fazer apenas um discurso, oferecer uma recepção aos membros da Commonwealth, e um banquete no iate real, convidando o presidente da República, a mulher e 50 convidados, dado o espaço social do “palácio real flutuante” ser relativamente diminuto. 

 

Visita desconhecida 

O segundo dia entre nós, a monarca dedicou-o aos seus amigos Domingos Holstein Beck e Maria do Carmo Pinheiro de Mello, V duques de Palmela, que a receberam no seu Palácio de Calhariz, em Sesimbra, casa sumptuosa mas bem portuguesa, envolta numa propriedade de 1000 hectares.

Inicialmente esta visita deixou perplexo o presidente da República. 

O presidente do Conselho Oliveira Salazar comentou que a atitude da soberana; “tem a meu ver enorme importância social é política: a rainha não nota em Portugal a separação noutros países evidente entre a classe governativa e a sociedade em geral”, acrescentando; “e pensa que o regime não vive à margem de qualquer sector da população e que existem aqui famílias às quais em inteira intimidade pode pedir que lhe dêem de almoçar, no espaço de tempo em que faz apenas vida privada e durante um passeio pelos campos”.

O presidente da República, melindrado por estar excluído do almoço, recebeu uma carta de Salazar, onde o estadista escreveu: “Podem invocar-se outras razões que desaconselham o almoço, aliás íntimo e particularíssimo, no Calhariz. É Vossa Excelência juiz do valor dessas razões, mas os telegramas que vêm da embaixada e cartas recebidas dos altos funcionários que privam com a rainha dão ideia de tal entusiasmo da soberana quanto à sua visita a Portugal, pelo conjunto de circunstâncias que se verificam nela, que eu com receio de a magoar, tendo para a compreensão e equiescência”.

Craveiro Lopes resolveu anuir para não provocar; “gelo e constrangimento”. 

O duque de Palmela, por sua vez, mandou escrever uma carta a Belém onde põe a Quinta de Calhariz às ordens do Estado, uma forma diplomática de desanuviar a situação.

Um ofício do Ministério dos Estrangeiros, datado de 11 de janeiro de 1957, pediu ao duque que “se colocasse à disposição de sua Majestade a rainha Isabel II da Grã- Bretanha durante todo o tempo que durar a visita oficial a Portugal, de 18 a 20 de Fevereiro próximo, (…) juntamente a senhora duquesa”.

A monarca e o marido deslocaram-se, discretamente no Rolls Royce Phantom III, através de Setúbal, serra da Arrábida até ao Calhariz. Levam somente uma pequena parte da comitiva. A histórica quinta conhecida pelo povo local por Palácio do Senhor D. Pedro, nome do I duque de Palmela, situa-se junto a aldeia de Maça, onde viviam os rendeiros da casa, na zona da Arrábida, próximo de Sesimbra e Azeitão.

A entrada da quinta é assinalada por um imponente portal em ferro com as armas ducais, onde Isabel II e o duque de Edimburgo são aguardados por guardas a cavalo que os escoltaram durante três quilómetros até ao ancestral palácio com origem quinhentista.

No pátio nobre um criado, de libré de luvas brancas, casaca preta e creme com botões em prata armoriados, camisa branca, calções vermelhos, meias brancas e sapatos pretos, abriu a porta do automóvel, fazendo imediatamente uma vénia. Isabel II e o duque de Edimburgo saem sorridentes, os duques de Palmela recebem-nos calorosamente. A soberana envergava um vestido branco de sada com flores verdes e vermelhas, sapatos abertos brancos, mala branca e não usava luvas, o duque de Edimburgo um fato discreto, A duquesa de Palmela vestia um vestido vermelho com bolas brancas, sapatos abertos brancos, o duque um fato escuro.

O casal real passou pela Sala da Caça, onde observaram bustos de imperadores romanos, tapeçarias flamengas, porcelanas chinesas, bufete e cadeiras portuguesas, percorrem os salões decorados com  mobiliário português, tapetes persas, pinturas de valor e retratos a óleo de antepassados. A sala de jantar redecorada com uma longa mesa, aparadores e cadeiras de estilo inglês, um retrato de um “Príncipe Inglês” de Angelica Kaufamam, um lustre outrora do Duque de Newcastle.

O almoço foi servido na célebre baixela da casa em prata. Esta fora executada, em 1823, por Paul Storr, considerado o melhor ourives inglês, com as armas do Barão de Teixeira, depois conde da Póvoa, cuja única filha casou com o filho primogénito do I Duque de Palmela.

“Lembro-me bem da visita da rainha ao Calhariz, ela e duque de Edimburgo desembarcaram em Setúbal no iate Britannia, e foram particularmente na véspera da visita-oficial ao Calhariz onde só estavam o meu pai, a minha mãe, o serviço da rainha e do duque de Edimburgo, nós, 11 filhos, a nossa nannie inglesa que nos educou, e o nosso capelão. A rainha foi muito simpática, nunca tivemos jornalistas, nada, nem era permitido, nem interessava ao meu pai. Isabel II esteve connosco todos, almoçou connosco, conversou connosco, e ainda conheceu alguns dos meus sobrinhos”, revelou Helena Soares Franco, filha dos duques.

“Foi uma visita giríssima”, comentou-nos Manuel Holstein Beck, conde da Póvoa, filho dos duques.

“Falámos especialmente de arte e cavalos”, sublinhou-nos Maria José Souza Holstein Beck de Canto e Castro, viscondessa de Meirelles, filha dos duques,  uma das raras pessoas vivas que presenciou esse momento.

Na visita ao Calhariz, que durou 5 horas, não esteve presente nenhum representante do governo português, foi uma visita privada e íntima. Os dois agentes da PIDE, deslocados para vigiarem a visita, almoçaram noutra ala, nada observaram, nem ouviram.

Após o almoço o casal real e a família Palmela passaram horas na Sala Azul num ambiente informal, onde se impunham retratos de família, sofás confortáveis e inúmeras molduras com fotografias.

Um empregado da Casa Palmela fotografou os reais visitantes e a família no pátio nobre e nos salões da casa.

A rainha escolheria os anfitriões para a acompanhar durante toda a estadia entre nós.

“O meu pai foi o ajudante-de-campo do duque de Edimburgo, a minha mãe a dama de Isabel II durante todo o tempo da visita”, sublinhou Helena Soares Franco.

Acompanhada pelo marido, Isabel II visitou Setúbal no regresso, o tempo estava chuvoso. 

A população acolheu-a entusiasmada, tendo passeado durante cerca de duas horas pela cidade, no Rolls Royce Phantom III, especialmente adquirido pelo Estado, ao príncipe de Berar em Londres, para a transportar. O veículo, fabricado em 1937, estava pintado de amarelo, sendo então restaurado conforme o aspecto original.

Setúbal engalanou com colchas, colgaduras e panejamentos os prédios para receber a ilustre visitante.

 

Apoteoticamente no Tejo

No dia seguinte o iate-real rumou até ao Terreiro do Paço, escoltado por três navios de guerra, uma fragata e dois contra-torpedeiros, dando início a uma visita oficial de quatro dias. 

Em Pedrouços organizou-se o cortejo fluvial, constituído por 12 arrastões bacalhoeiros, 50 rebocadores, oito barcos de pesca, 15 traineiras de Setúbal, 16 de Peniche, 10 embarcações do Instituto de Socorros a Náufragos, e inúmeros ferry-boats. O desfile foi classificado na imprensa como um “aparatoso cortejo fluvial”. 

Isabel II e o duque de Edimburgo desceram do iate para o bergantim, que navegou 300 metros, encomendado em 1785 para o casamento de D. João VI e D. Carlota Joaquina, 

O barco foi utilizado pela última vez. Hoje está exposto no Museu de Marinha, em Belém. 

Puxado por 80 remadores, vestidos com librés, atracou no cais das colunas às 11 horas, saudada por uma salva de 111 tiros disparados do Castelo de São Jorge e do alto de Santa Catarina, sendo tocado o hino “God Save the Queen”. 

A monarca de vestido e chapéu azul, luvas brancas, um colar de pérolas e um alfinete em diamantes, o duque de Edimburgo farda de gala.

O casal-real é recebido pelo presidente da Republica, em uniforme de gala, e a mulher com vestido, capa e chapéu azuis. De seguida encaminharam-se, entre alas de alunos da Escola Naval, para a tribuna de honra. Nela encontrava-se Salazar com o “rosto sorridente, lê-se respeito e enternecimento”, segundo relatos da imprensa.

Leitão de Barros, cineasta, escritor e pintor, esteve encarregado de conceber a tribuna e dossel com madeira entalhada, cetins dourados, veludos vermelhos e panejamentos de estilo D. João V, sendo aquecida por raios infravermelhos. Os custos finais foram considerados por Salazar um “exagero de orçamento”.

Da tribuna o casal assistiu a uma parada de seis mil homens comandados pelo governador militar de Lisboa. Na ocasião tocaram as bandas da GNR e da Marinha.

Nesse dia, feriado nacional no concelho de Lisboa, os serviços públicos estavam encerrados, o comércio fechado durante a manhã. A RTP, ainda em fase experimental, realizou, com êxito, a primeira reportagem no exterior com o apoio da BBC.

O cineasta António Lopes Ribeiro efectuou um documentário dedicado à visita. Hoje um documento histórico.

                                                     

Desfile pelas ruas da capital

Terminada a cerimónia no Terreiro do Paço, iniciou-se o cortejo pelas ruas de Lisboa.

Isabel II, aclamada por milhares de pessoas, seguiu no coche da coroa, sumptuosa carruagem inglesa oitocentista, retirada do Museu dos Coches e utilizada pela última vez.  

A chefe-de-estado abriu o cortejo, acompanhada pelo presidente da República, no segundo coche o príncipe Filipe e o duque de Palmela, no terceiro a condessa de Leicester e a duquesa de Palmela, os restantes levavam a comitiva.

Chegavam-se a alugar janelas no percurso por 1500 escudos para ver a monarca. Os jornais e revistas faziam edições especiais, algumas a cores, coisa rara na época. A cor apareceria habitualmente na imprensa umas décadas depois.

O desfile, escoltado pela cavalaria da GNR com charanga, seguiu pela faixa leste do Terreiro do Paço, Rua Augusta, Praça do Rossio, Avenida da Liberdade, Parque Eduardo VII. Neste espaço, baptizado em honra do bisavô de Isabel II, o cortejo parou. A monarca observou a largada de 10 mil pombos brancos – símbolo da paz e da harmonia das relações entre Portugal e o Reino Unido.

O tempo piorou, a rainha seguiu, com a comitiva, em Cadillacs escuros rumo ao Palácio de Queluz, sua residência-oficial durante os dias da visita. Ao chegar teve um almoço íntimo. Os aposentos reais foram observados atentamente. Nele foram dispostos móveis como nos aposentos em Buckingham. Isabel II gosta de ter sempre os objectos nos mesmo locais, evitando perder tempo e cumprir escrupulosamente os horários.

A monarca trouxe dois guarda-fatos em couro azul, com rodas, onde estavam os vestidos de noite, e uma cómoda, em couro montada sobre rodas, que continha luvas, meia, lenços, e caixas com sapatos e de chapéus.

Durante a tarde voltou a Lisboa. No Palácio de Belém reuniu-se com Craveiro Lopes, dando-se a habitual troca de presentes. 

Isabel II recebeu um cavalo lusitano e os respectivos arreios.

O presidente da República o óleo “Aliança Luso-Britânica” de Graham Sutherland, hoje no Museu do Caramulo por doação do político.

A rainha conversou com o presidente de inúmeros assuntos, um deles foi de cavalos e raças. Craveiro Lopes era oficial de cavalaria e entendido, tal como a visitante, em cavalos.

 

Único discurso

A chefe de estado apenas fez um discurso. O local escolhido foi o Palácio da Ajuda, onde decorreu o banquete no primeiro dia.

Os convites tornaram-se problemáticos, com “pedidos de favores, despeitos, invejas”, segundo Franco Nogueira. 

Os convites foram enviados, por sugestão de Marcello Caetano, presidente da Assembleia Corporativa, aos membros da nobreza indicando somente os nomes, excluindo os títulos. Os nobres ofendidos consideraram uma afronta o republicanismo de Craveiro Lopes e recusam os convites.

Salazar escreveu ao presidente da República: “O caso é aborrecido, mas parece não ter solução para já, o que mais me penaliza é que os comentários hão de ser desfavoráveis a Vossa Excelência que nenhuma responsabilidade teve na solução adoptada”.

O banquete foi inspecionado por Salazar, que aconselhou ao presidente da República: “Como Vossa Excelência deve preferir o discurso em português, seria gentil da nossa parte fazer uma edição em inglês que pudesse ser distribuída e colocada no lugar de cada convidado inglês, com a ementa”.

Nessa noite, Isabel II chegou à Ajuda de vestido de seda branco, bordado a fio de ouro, e com a Banda das Três Ordens, e uma tiara. Ao sair do automóvel teve honras militares prestadas pela GNR. 

Na entrada-nobre do palácio era aguardada pelos oficiais da casa-militar da presidência da República e por elementos do protocolo do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

De seguida subiu a escadaria, decorada com estuques oitocentistas, atapeada por uma passadeira avermelhada, e repleta de flores e avencas.

No cimo aguardavam-na Craveiro Lopes e a mulher, seguindo para a sala chinesa, pequena divisão com porcelanas, quadros e contadores oitocentistas de estilo Carlos II de Inglaterra. Dai os dois casais instalaram-se na Sala D. José, conversando durante minutos. 

Entretanto nas salas do Trono e de Baile encontravam-se os convidados - representantes da economia, finança, política e diplomacia.

As senhoras vestiam modelos de Dior, Lauvin, Jacques Fath, Balmain, Anna Maravilhas. As jóias com esmeraldas e diamantes brilhavam perante a luz vinda dos lustres e candelabros. 

Os homens ostentavam nas casacas condecorações dos cinco continentes, numa mistura de ministros, corpo diplomático e figuras da sociedade portuguesa.

A orquestra na tribuna da Sala de Baile tocava Mozart.

O presidente da Republica deu a direita a Isabel II e a D. António Cerejeira, cardeal-patriarca de Lisboa. À esquerda ficaram Berta Craveiro Lopes e o duque de Edimburgo.

Durante o banquete, na tribuna dos músicos da sala, o maestro Pedro de Magalhães dirigiu uma orquestra que executou vários trechos clássicos.

A monarca apreciou o jantar, tendo misturado pão na sopa, os restantes convidados, admirados, seguiram-na.

Após os brindes, Craveiro Lopes fez o discurso-oficial:

Craveiro Lopes realçou o respeito mútuo, os interesses políticos luso-britânicos, os acontecimentos históricos que fundamentaram a aliança.

De seguida, Isabel II fez o seu, tão aguardo é único, discurso:

 “É com muito gosto, senhor Presidente, que me encontro, juntamente com o meu marido, no altivo e belo país que é Portugal e desejamos agradecer a Vossa Excelência e ao povo lusitano as inesquecíveis boas vindas recebidas hoje, enquanto atravessávamos as ruas da vossa capital”.

A monarca não quis deixar de lembrar a visita do seu bisavó a Lisboa, as personalidades inglesas que marcaram a história lusa e os navegadores portugueses.

“Vivemos numa época tumultuosa. Ambos os nossos países enfrentaram no passado tormentas e passaram-nas a salvo. Confio em que eles farão agora o mesmo. Nestes recentes e conturbados tempos, o entendimento e o apoio do nosso mais velho aliado tem sido fonte de força e de satisfação para nós. Num mundo em contínua mutação, a velha aliança de 600 anos entre os nossos países brilha com um exemplo de constância, que bem pode encorajar outros, além de nós próprios. Que possa encorajar as gerações vindouras. Ergo a minha taça, senhor Presidente, à saúde de Vossa Excelência e à da senhora de Craveiro Lopes e à felicidade e prosperidade do povo de Portugal.”

O banquete terminou com um brinde. Seguindo-se a recepção entre sedas e brocados, telas de mestres portugueses e europeus, porcelanas da Saxe e de Sevres, tapetes franceses e persas, tapeçarias francesas e chinesas, móveis europeus e orientais. 

Os convidados espalharam-se pelas salas do Trono, de Baile, dos Embaixadores, sendo a D. João IV reservada somente ao corpo diplomático e aos subsecretários de Estado.

O chefe de estado deu o braço à rainha, entrando, às 23 horas, na Sala do Trono, seguidos pelo duque de Edimburgo que dava o braço a primeira-dama portuguesa, atrás outras personalidades do governo e da comitiva-real. 

Na tribuna da Sala de Baile a orquestra tocava Mozart.

Nesta ampla divisão o cortejo parou. O general Craveiro Lopes e a mulher apresentaram o governo e convidados ao casal-real, havia um aperto de mão, as senhoras faziam uma vénia, os homens baixavam a cabeça.

Nesse ambiente, faustoso pelo ambiente e pelas toalettes, ocorreu até à meia-noite e trinta minutos a recepção. 

A monarca e o marido retiraram-se, abandonando a Sala dos Embaixadores, percorrendo, sob fortes aplausos, as salas D. João IV, Baile e do Trono. O casal foi acompanhado até à porta do palácio pelo presidente e mulher, despedindo-se calorosamente. 

A Ajuda vira a mais pomposa recepção do século XX português.

 

Fausto em Queluz

A comitiva real ficou instalada na ala D. Maria do Palácio de Queluz, onde se encontrava o delegado do protocolo português, Braga da Cruz, e agentes da PIDE.

Durante meses três mil operários trabalharam nos arranjos do Palácio de Queluz, dos Paços do Concelho de Lisboa, do Mosteiro de Alcobaça e do Terreiro do Paço.

A ala D. Maria do Palácio de Queluz foi totalmente redecorada pelo conservador António Ventura Porfírio. Os aposentos da rainha componham-se de um quarto com cama, mesa e cadeira em pau-santo D. João V.

O príncipe Filipe dormiu noutro quarto numa cama D. Maria, tendo ainda um gabinete de trabalho decorado com uma tapeçaria, confortáveis sofás modernos, uma cadeira e secretária Império.

O chão foi alcatifado para dar maior conforto, uma tradição bem inglesa, observando-se ainda tapetes persas, de Aubusson e de Arraiolos.

Todos os pormenores da visita são previstos pormenorizadamente; as dormidas, a hora do chá, o pessoal, os detectives que não “deviam dormir em Queluz no mesmo piso da rainha".

Salazar foi recebido em audiência particular, ao anoitecer no primeiro dia, pela soberana no Palácio de Queluz, sendo acolhido na entrada pelo secretário.

 

Multidões delirantes

No segundo dia o casal recebeu o corpo diplomático em Queluz, deslocando-se depois para Lisboa, onde são novamente muito ovacionados.

A rainha demonstrara o desejo de visitar um bairro social ou uma instituição de solidariedade. O protocolo acabou por escolher a nova urbanização do Restelo, parando no Mosteiro dos Jerónimos e no Museu dos Coches.

No Restelo a multidão veio para as ruas aclamar a jovem soberana. 

As crianças, vindas das quatro escolas do bairro, acenavam pequenas bandeiras portuguesas e inglesas.

O dia solarengo ajudava nesse ambiente de festa, o bairro social engalanara as casas com flores nas varandas e colchas nas janelas. 

Os populares aguardaram a ilustre visitante durante horas, procurando aos motociclistas da polícia se a rainha havia já abandonado Queluz e se demorava muito.

Finalmente chegaram os primeiros quatro automóveis com a comitiva portuguesa e inglesa, dá-se o zénite, a multidão disse em coro; “ A rainha, a rainha, a rainha”. 

Finalmente a régia-visitante chegara, vestindo um casaco cinzento cumprido, um chapéu arrendado, luvas e mala igualmente cinzentas.

Durante o cortejo, Isabel II observou uma senhora sorridente, com um bebé ao colo, que acenava com um ramo de flores. A chefe de estado mandou parar o automóvel, desceu o vidro, estendeu a mão e recebeu o ramo de rosas com um sorriso.

A multidão não parou de aclamar a soberana, que seguia acompanhada pela duquesa de Palmela.

Ao meio dia o cortejo-real alcançou o Mosteiro dos Jerónimos. 

Milhares de pessoas, vindas de Alcântara, Ajuda, Algés e da linha de Cascais, aclamavam Isabel II.

Na entrada do templo é recebida por D. António Campos, bispo de Febiana.

A multidão gritou o nome de Isabel II e aplaudia-a com intenso fervor, a soberana acenou.

Na igreja são-lhe mostrados os túmulos de Vasco da Gama e de Luís de Camões, parando no retábulo do altar-mor com cenas da Paixão de Cristo e da Adoração dos Magos de Lourenço de Salzedas.

A monarca ficou impressionada pela grandeza do local. A visita era guiada pelo arquitecto Luís Benavente, funcionário da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.

A visita prosseguiu no mosteiro, demorando-se no claustro manuelino e na sala do capítulo onde repousa Alexandre Herculano. O coro da Casa Pia continuou a ouvir-se. Às 12h30 a visita terminou, a chefe de estado despediu-se com palavras de agradecimento.

Seguiu-se o Museu dos Coches, na curta distância a multidão aplaudio-a fervorosamente. As janelas encontravam repletas de pessoas, estando decoradas com colchas e panejamentos.

Ao entrar no museu, a multidão continuou a irromper em vivas. 

A governante percorreu os dois salões, ouvindo atentamente as explicações e fazendo alguns comentários. O coche de Filipe II ou da mesa cativou-a especialmente. 

 

Banquete com baixela russa

A monarca e o marido chegaram, às 13h45, aos Paços do Concelho, escoltados por motociclistas da GNR. 

A multidão aplaudio-os, acenando com lenços e bandeiras.

Na praça os prédios tinham panos vermelhos ostentando as armas de Portugal e do Reino Unido intercaladas. 

Numerosos mastros possuíam estandartes brancos com os símbolos de ambas as nações. A decoração era completada por jardineiras de ferro com flores nas janelas.

O edifício da edilidade apresentava um aspecto soberbo. Na entrada um dossel de damasco branco e creme, suspendido por duas altas colunas em madeira entalhada e dourada de estilo D. João V. Das balustradas do edifício pendiam tapeçarias com as armas da edilidade.

A multidão enchia a praça e as proximidades, apenas a Rua do Comercio estava livre. 

Na frontaria dos paços a guarda de honra da GNR tocou o hino inglês e português. Isabel II e o príncipe Filipe receberam os cumprimentos do presidente da câmara, tenente coronel-coronel Salvação Barreto, e da filha, duquesa de Loulé. Seguiram-se os vereadores Luís Pastor de Macedo e Aníbal Pinto, que trazia a bandeira preta e branca do município.

No átrio, decorado com ramos de camélias e alcatifas avermelhadas, a soberana foi cumprimentada pelo ministro do interior, ladeada por duas alas, numa o séquito real, noutra os vereadores. 

Ao longo da escadaria, decorada com camélias brancas, os pagens com trajes brancos e pretos prestavam guarda-de-honra aos visitantes. 

No centro do patamar viam-se dois corvos vivos, símbolo de Lisboa, numa caravela prateada com as armas da “mui nobre cidade”.

O cortejo começava com um arauto, o que não acontecia desde 1619, quando Filipe II fora recebido desta forma. O arauto vestia casaca e calção preto, listrada a prata, na mão esquerda bicórnio emplumada, na direita o bastão de ouro. De seguida três contínuos de grande uniforme e espadins, o almoxarife e o chefe de protocolo do Estado.

A seguir a monarca e o presidente da edilidade, o duque de Edimburgo e os ministros do interior, o vice-presidente da câmara, os duques de Palmela, as duas aias e restante comitiva, no fim doze vereadores, ostentando todos, bem como o presidente os colares camarários.

A decoração fora concebida pelo arquitecto Rebello de Andrade, assistido pelo decorador João Alcobia.

O casal-real ficou acompanhado pelos duques de Palmela, aias, duquesa de Lafões, filha de Salvação Barreto, que ajudava o pai nas honras da casa.

No Salão Dourado encontravam-se os ministros do interior e dos Negócios Estrangeiros, os governadores civil e militar de Lisboa, acompanhados pelas mulheres, 

A rainha e o duque de Edimburgo, seguidos pelo presidente e vice-presidente da câmara, entraram e foram-lhe apresentados os presentes, bem como os doze vereadores da câmara e as respectivas mulheres.

A multidão continuava, sem cansaço, a aclamar: “ A rainha Isabel”, então, às 14h00, abrem-se as janelas da varanda, e a soberana, com um casaco de peles sobre os ombros, acenou e sorriu, acompanhada pelo príncipe Filipe. Os milhares de pessoas deliraram, acenando e batendo palmas, lenços e as bandeiras dos dois países.

De seguida decorreu o banquete. Os 50 convidados espalhavam-se por cinco mesas no salão-nobre. 

As toalhas eram em bordado da Madeira. A baixela em prata dourada, outrora da Imperatriz Maria Teodorovna da Rússia, proveniente da colecção do banqueiro Ricardo Espirito Santo Silva, fora cedida pela viúva Mary Sarmento Cohen. 

Destacavam-se, ainda, cravos em floreiras de prata arranjados pela aguarelista Helena Roque Gameiro. 

As porcelanas, da Vista Alegre, foram especialmente desenhadas pelo decorador e cenógrafo Lucien Donnat.

Isabel II entrou no salão com os convidados de pé. O almoço foi servido por criados de libré.

Enquanto decorria o banquete, na sala anexa, um grupo dirigido pelo maestro Pavia de Magalhães, tocou diversas temas musicais.

O presidente a câmara ergueu o seu copo de Porto, seguindo-se todos os convidados, que beberam à saúde da ilustre visitante.

Após o café, o presidente discursou, a rainha agradeceu em privado.

Ao terminar o banquete, a monarca dirigiu-se para a sala de sessões, transformada em sala de recepção para 250 convidados, todos funcionários do município de Lisboa.

Isabel II assinou o livro de ouro da cidade e trocaram-se presentes. A visitante recebeu um guarda-jóias em ouro, ao gosto setecentista, cinzelado com volutas e conchas, com uma ametista e as armas da cidade gravadas em relevo, encomendado especialmente na Casa Leitão & Irmão, onde estivera exposto na montra. A rainha retribuiu com uma grande taça clássica em prata inglesa.

A monarca abandonou os paços, repetindo-se o protocolo da entrada. Ao sair acenou à multidão que a aclamou entusiasmada.

 

Salazar na ópera

O segundo dia da visita terminou com uma récita de gala no Teatro de São Carlos. A soberana estava deslumbrante com um vestido de tule branco, bordado a diamantes, e com a habitual tiara.

Na antiga tribuna da Casa de Bragança tomaram lugar o casal-real, Craveiro Lopes e a primeira-dama, os duques de Palmela e a comitiva. 

Salazar estava presente, conversando, em francês, com a monarca durante o intervalo. “A rainha, na sua mocidade, não oculta o deslumbramento perante aquele homem antigo, de quase 70 anos, que lhe fala serenamente das coisas do mundo”, segundo Franco Nogueira.

A ópera “Um sonho de D. João V, de Braamcamp de Barahona Fragoso, conde da Esperança, não foi um espectáculo bem conseguido.

Nas memórias inéditas, escritas nos anos 70 e 80, a duquesa de Palmela desabafou: “Quando Sua Majestade a rainha da Grã-Bretanha (…) condecorou Salazar com a sua graciosa mão - o nosso primeiro-ministro fez o mesmo - portanto a parte oficial pessoal estava retribuída. Porém aconteceu que na noite de ópera em São Carlos durante o primeiro intervalo, na sala particular do antigo camarote-real, sua majestade conversou animadamente com Salazar. A rainha lindíssima, cheia de jóias a cintilarem… mas entre estas brilhava a condecoração portuguesa. 

Salazar trajava apenas a sua casaca negra, com uma pontinha branca do seu lenço branco saindo sorrateiramente da pequenina algibeira. A condecoração inglesa devia estar descansando na sua caixa apenas com as letras designando o que era na sua tampa. Dormiu esse sono que muitos não sentem – mas que para a vossa mãe era incompreensível.

Atrevo-me a chamar-lhe falsa humildade – não soube Salazar ter esse toque de cortesia que é exigido a uma Senhora Chefe de Estado da nossa maior e mais antiga aliada”.

O presidente do Concelho achava que “as condecorações não se pedem, não se recusam e não se usam”.

Ainda se comenta hoje, nos meios diplomáticos nacionais, que terá sido a “visita do século”, um momento que provavelmente Isabel II nunca esqueceu. 

António Brás