Bernardo Sousa I Um jovem violinista que sonhou ser jogador no Sporting.

Bernardo Sousa tem 22 anos e está a poucas semanas de partir para a Holanda, onde iniciará mestrado em “Performance em Música Clássica – Violino”, no Conservatório Real de Haia, mas nem sempre a música foi a sua primeira paixão, o caminho escolhido sem hesitações e aquela que acreditava ser a sua vocação e o seu futuro.

Aos seis anos, Bernardo começa o seu percurso escolar na escola do 1º ciclo ao mesmo tempo que inicia dois outros caminhos singularmente diferentes: futebol e música. Ao longo de 10 anos, as mãos que pisavam as cordas do violino e aprendiam a pegar no arco num subtil exercício de equilíbrio e rigor, eram as mesmas que calçavam as luvas reforçadas de guarda-redes para agarrar uma bola que lhe podia chegar a 100km/h.

Dessa época, ficaram boas recordações e um troféu de melhor guarda-redes da temporada.

“Durante muito tempo o que eu queria mesmo era ser jogador de futebol. A dada altura comecei a mostrar mais capacidades como guarda-redes e passei a ocupar essa posição nos clubes onde joguei. Sem dúvida que era no futebol que eu via o meu futuro e sendo adepto do Sporting, claro que o meu sonho era um dia jogar no meu clube do coração. Acontece que ao mesmo tempo estudava violino e a minha mãe temia sempre que eu lesionasse as mãos o que felizmente nunca aconteceu. Apesar dos receios, os meus pais nunca me forçaram a nada e muito menos me obrigaram a fazer uma escolha. Curiosamente, o meu pai está mais ligado ao desporto e a minha mãe à música, e assim eu acabava por realizar dois caminhos que tinham a ver com os meus pais. O violino só me conquistou plenamente mais tarde”.

Em relação à forma como começou a sua formação musical, Bernardo reconhece que foi um caso singular, considerando o panorama do país, já que teve a possibilidade de realizar a aprendizagem de um instrumento musical numa escola pública. “Infelizmente essa é uma realidade rara no nosso país que continua a desvalorizar a educação musical na formação de uma criança. Eu tive a sorte de frequentar uma escola do 1º ciclo onde funcionava um pólo da Escola de Música do Conservatório Nacional e por isso, aos 6 anos, iniciei em simultâneo a minha escolarização e a minha formação musical”.

Depois de um teste inicial, o nosso jovem entrevistado foi encaminhado para a aprendizagem do violino e a sua primeira professora viria a ter um papel decisivo no seu percurso e nas opções que veio a tomar: “A minha primeira professora foi a Anne Vitorino d’Almeida e felizmente voltou a sê-lo nos 3 últimos anos do meu percurso na EMCN. Foi uma pessoa determinante no meu processo de crescimento como aluno e no amadurecimento das minhas decisões, especialmente quando fiz o curso profissional e o violino passou a ser de facto uma opção consciente da minha parte. A minha professora conseguia sempre conciliar o seu lado de grande exigência, sem contemplações, com o reforço positivo e isso impelia-me a um trabalho sério e cada vez mais empenhado porque queria sempre mais e melhor. Quando recebia um elogio da professora Anne, que mostrava sempre um entusiasmo genuíno pelo progresso, eu ficava muito feliz e ainda mais motivado. Com ela estabeleci uma ligação especial que foi um factor decisivo para a minha evolução”. Bernardo lembra-se bem que o seu empenho até aos 17 anos não havia sido o melhor e não esquece as duas outras professoras que o acompanharam desde a iniciação até ao 5º grau de instrumento por volta dos 14 anos: “a professora Rosa Sá que esteve comigo apenas um ano e a professora Natacha Guimarães que me acompanhou durante 7 anos foram muito pacientes, porque eu ainda não tinha dado o salto, o tal click que numas pessoas se dá mais cedo e noutras nem sequer vem a acontecer e trabalhava pouco”. Bernardo sorri e olha para o violino que descansa no estojo recordando as múltiplas vezes em que ia para a aula sabendo que não só não tinha estudado o suficiente como o não o tinha feito de forma adequada porque, tal como agora defende “não nos devemos apenas focar no tempo ocupado a tocar, mas na forma como o fazemos. É evidente que actualmente trabalho mais horas por dia, mas não alterei apenas a duração do estudo. Mudei a técnica e as estratégias de trabalho individual e a auto-avaliação crítica. Não vale a pena insistir durante muito tempo numa passagem duma peça quando o que se está a fazer é incorrecto porque isso apenas acentua e reforça o erro. É fundamental termos consciência do que estamos a fazer, reconhecer os erros e o que fazemos bem. Sermos ouvintes e observadores de nós próprios, como se fôssemos professores, é fundamental. Há um livro que explica muito bem esta questão, trata-se do “Código do Talento” de Daniel Coyle. Nesse livro o autor relata o que vai observando nas várias escolas que ele apelida de viveiros de talentos espalhadas pelo mundo e chega à conclusão que o segredo dos que alcançam a excelência está sobretudo em 3 factores: o treino profundo, consciente dos erros para que não se repitam, ou seja, o estudo correcto com vista à perfeição, a ignição, o tal estalar de dedos mental que nos motiva e nos eleva a outro patamar que não é o mero cumprimento de uma obrigação e, por último mas tão importante quanto os restantes, um professor com quem o aluno estabeleça uma ligação de cumplicidade. Eu tive a sorte de conseguir num momento crucial os 3 factores e os resultados começaram a surgir apesar de reconhecer que foi sobretudo no último ano do curso profissional que encontrei a “afinação” comportamental certa porque “estar” na música de forma séria obriga-nos a sacrificar descanso ou vida social.

A “ignição” motivacional que ditou a grande viragem, surgiu depois de uma fase em que quase abandonou o violino. “No 10º ano decidi sair do Conservatório e nessa altura o violino não era a minha opção profissional. Entrei em Ciências e Tecnologias na Escola Secundária de Camões, mas curiosamente foi também nessa altura que o bichinho pela música clássica começou a despertar quando vi “O Concerto”, um filme sobre um maestro que foi despedido da Orquestra Bolshoi por contratar músicos judeus, este maestro decidiu juntar de novo os músicos, passadas algumas décadas do acontecimento, para substituir a atual orquestra num concerto em Paris e convida uma violinista para tocar o Concerto de Tchaikovsky para Violino e Orquestra. Foi quando ouvi o concerto no filme que fiquei rendido à obra e fui procurá-la no Youtube. A partir daí abriu-se um novo mundo para mim e comecei a interessar-me a sério pelo repertório para violino e para orquestra. Claro que já tinha tocado muita coisa, mas de repente senti um deslumbramento. Sinto que isso fez com que não arrumasse em definitivo o violino e até tomei a iniciativa de começar a tentar tocar alguns concertos para violino que fui conhecendo, como o concerto de Mendelssohn e Max Bruch. No entanto, apesar de ter mantido o contacto com o instrumento, este tinha perdido claramente protagonismo até que, quando terminei o 11º ano, a mudança acontece”.  

Para a viragem de rumo terá contribuído a última participação num festival de orquestra em que era usual integrar no Verão. “Dos 12 aos 16 integrei o Festival de Música Júnior, em Montalegre, que durava uma semana. Durante aqueles dias tocava de manhã à noite e apesar de cansado gostava imenso de tudo aquilo: o ambiente, os ensaios, os concertos, o convívio com colegas oriundos de escolas diferentes. E era sempre uma enorme tristeza o momento em que todos nos despedíamos até ao Verão seguinte. No último ano em que participei, os meus pais chamaram-me à atenção que aquilo que ali vivia era semelhante à vida de um músico e se eu gostava assim tanto e nem me importava com o cansaço, era porque, provavelmente, gostava mesmo de ser músico. Na verdade, o que os meus pais me disseram fez-me pensar e como até andava interessado pelo repertório violinístico, comecei a ver a minha relação com a música numa outra perspectiva. Uns dias mais tarde a professora Anne em conversa com a minha mãe sugere que eu me candidate ao curso profissional na EMCN porque ela sempre tinha acreditado que eu possuía potencial para vir a ser um bom músico. Como também não estava propriamente feliz no percurso académico no Camões, senti que aquele podia mesmo ser o meu caminho”.

E foi assim que se deu o regresso ao Conservatório Nacional, uma casa onde tinha entrado muito cedo “eu tinha pertencido a um grupo de alunos que foi “inaugurar”, no 5º ano do 2º ciclo, o ensino integrado no velho edifício da EMCN da Rua dos Caetanos. É preciso dizer que o edifício, na altura já muitíssimo carente de obras de recuperação, não estava minimamente preparado para receber um ensino de características bem diferentes do artístico e muito menos para lidar com miúdos em tempo integral a querer correr nos intervalos pelos corredores de chão rangente e a querer jogar futebol no pátio interno colocando em risco os vidros das janelas (muitos se partiram nessa época). Não estava o edifício preparado nem os funcionários habituados a uma população estudantil bem diferente da que a escola conhecia, alunos que ali iam de passagem apenas para as aulas de música ou para estudar”.

Hoje, Bernardo Sousa vê com amargura e tristeza a paragem das obras de reabilitação daquela que foi a sua 2ª casa durante muitos anos e onde somou amizades, conhecimento, experiência e momentos marcantes como eram sempre as audições e recitais, mas igualmente os “puxões de orelhas” que assume como importantes para a sua evolução.

Terminado o ensino profissional, que o obrigou a recuar 2 anos de escolarização em virtude da mudança da via de ensino, seguiu-se a licenciatura na ANSO, Academia Nacional Superior de Orquestra a funcionar no edifício da Metropolitana onde estudou com o professor José Pereira com quem estabeleceu uma boa relação.

“A licenciatura correu muito bem, fortaleci a minha autonomia sobretudo nestes dois últimos anos em que, devido à pandemia, as aulas decorreram de forma distante e muito estranha. Mas também julgo que devemos ser capazes de aprender a partir das dificuldades porque acredito que são estes desafios que nos musculam o lado emocional. A vida apresenta-nos obstáculos que temos que saber contornar. Eu sabia que não podia “baixar a guarda” e facilitar no estudo que se torna mais difícil longe do ambiente académico que se vive numa escola e sem saber quando é que tudo voltaria ao normal “.

Ao longo dos anos foi somando experiências: foi membro da Orquestra Juvenil durante 4 anos, com quem tocou a solo em 2020. Durante 4 anos, foi bolseiro da Fundação GDA/Orquestra Sinfónica Juvenil, e dois anos bolseiro da Fundação EDP/Orquestra Sinfónica Juvenil. Durante a licenciatura foi ainda membro da Orquestra Académica Metropolitana, tocou com a Orquestra Metropolitana de Lisboa e com a Orquestra Municipal de Sintra – D. Fernando II. Foi selecionado para a Orquestra Académica Filarmónica Portuguesa em 2019 e em 2020. Foi ainda um dos selecionados para o Estágio Gulbenkian para Orquestra 2021 e ganhou uma bolsa para frequentar o Verão Clássico que irá agora decorrer nos primeiros 10 dias de Agosto no CCB.

Para além dos aspectos mais intimamente ligados à música, foi eleito como um dos representantes dos alunos no Conselho Pedagógico da ANSO um papel que assumiu com muita seriedade e empenho porque considera que “devemos mantermo-nos atentos ao que nos rodeia e contribuir para melhorar o que pode sempre ser melhorado. A evolução é conseguida com a participação activa de cada um para que abrangentemente consiga um mundo melhor com disciplina há sempre tempo para nos envolvermos na vida colectiva”.

Bernardo vê o futuro com realismo e esperança “inicio esta nova etapa com muito entusiasmo. Sei que o trabalho continuará a ser árduo porque o nível artístico é cada vez mais elevado o que inevitavelmente leva a uma cada vez maior exigência e rigor. Mas também que vou ter experiências enriquecedoras e estou preparado para elas. Quanto aos meus objectivos a mais longo prazo, gostaria de tocar numa grande orquestra e ter outros projectos, nomeadamente de música de câmara”.

Marionela Gusmão

Fotos: José Luís Teixeira