Arte Oriental no Porto

Cofre de Guzarate ou Decão, 1540/60

Contador, norte da Índia, 1630/60

Escritório, Guzarate, 1600/50

Prato, Guzarate, 1550/68

Bacia e jarro, Guzarate, 1550/1620

Búzio de beber, Guzarate e ferragens europeias, 1550/1620

Bacia, Guzarate e prata holandesa, 1550/1620

Pormenor de arqueta-escritório, Gujarat, 1540/1580

Tabuleiro de jogo, Sinde, 1580/1620

Ventó, Tanã, 1540/1600

Bufete, Tanã, 1540/1600

Contador de estrado, Goa, 1600/1700

Escritório, Cochim, 1550/1650

Do Oriente sempre nos atraíram, como se sabe, os marfins, os têxteis, as porcelanas, as lacas e, principalmente, os móveis. Estes últimos são, por certo, as áreas mais conhecidas e estudadas entre nós. 

A exposição A Índia em Portugal, patente no Museu Soares dos Reis, apresenta-nos um raríssimo conjunto de 69 peças, datadas de 1500 a1700, maioritariamente provenientes de colecções privadas. 

O curador do evento, Hugo Miguel Crespo, escreve no catálogo ”Tenho a certeza que o Pedro (Aguiar-Branco) aprovaria as novas descobertas. Com alguns talentosos restauradores que têm trabalhado intimamente com este tipo de objectos, o Pedro foi o mais talentoso dos antiquários. A sua morte prematura (ocorrida no confinamento em 2020, aos 57 anos) privou-nos do valioso conhecimento empírico que tinha sobre eles, e é por isso que o meu texto lhe é dedicado”.

Em Portugal existem colecções preciosíssimas de mobiliário de influência oriental, destacando-se as dos museus de Arte Antiga, das fundações Ricardo Espírito Santo e Medeiros e Almeida, em Lisboa. No Porto evidenciam-se exemplares nos museus Soares dos Reis e Guerra Junqueiro. Os museus municipais da Figueira da Foz e Viana do Castelo, os palácios de Sintra, Ajuda, Sintra, Guimarães e Vila Viçosa, os museus nacionais Machado de Castro em Coimbra e Grão Vasco em Viseu, bem como os dos Biscainhos em Braga e Quinta das Cruzes no Funchal.

Verdadeiro frenesim

A partir dos descobrimentos, os móveis indo-portugueses  impuseram-se. As classes abastadas do nosso País, deslumbradas com a sua expressão criativa, receberam-nas com grande entusiasmo. Um verdadeiro frenesim atravessou os nossos palácios, conventos e igrejas que rapidamente se engrandeceram com elas. Os salões passaram a ostentar sumptuosos contadores de chão, mesa ou estrado, bufetes, escritórios e ventós.

Nas zonas privadas destacavam-se as camas, as arcas, os cofres e os oratórios Os altares das igrejas brilhavam, por sua vez, cofres (serviam, por vezes, para guardar as hostias) e estantes de missal.

Maiores coleccionadores

Os portugueses têm sido desde o século XVI os maiores colecionadores deste género de mobiliário, hoje património mundial. A contribuição que deram para o seu fabrico e expansão foi notável, embora pouco conhecida. 

Rapidamente a moda chegou à Europa, servindo o nosso Pais de intermediário entre o Oriente e o Ocidente. Inicialmente os holandeses, ingleses e franceses decoraram os seus palácios com contadores, bufetes e cofres.

A nossa preferência foi sempre para peças indo e cingalo portuguesas. Esses móveis eram executados por artificies indígenas que utilizam madeiras locais como sissó, ébano, teca e outras madeiras exóticas. A decoração era realizada com embutidos em marfim, laca e metais como o bronze e mais raramente a prata. Os motivos eram muitos diversificados – paisagens, cenas do quotidiano e de corte, caça, desenhos geométricos, e, mais raramente, brasões, monogramas e símbolos religiosos. 

Os contadores eram frequentemente assentes em nagini, divindades hindus com busto humano e cauda de sepente ou sereia  que, por sua vez, podiam assentar em leões.

Este gosto tornou as peças portuguesas de grande raridade e valor. 

No século XIX a moda chegou aos Estados Unidos, onde se iniciaram grandes colecções. As nossas peças tornam-se as mais procuradas e valorizadas – o que não tem parado de aumentar. Actualmente, os seus preços atingem verbas exorbitantes, sendo disputadas pelos maiores museus e coleccionadores mundiais.

Nos últimos anos assistiram-se a verdadeiros recordes. Um contador com as armas Mascarenhas (Marqueses de Fronteira) foi vendido na leiloeira Cabral Moncada por 80 mil euros. No Palácio do Correio Velho um cofre em tartaruga quinhentista chegou aos 65 mil euros, um tabuleiro de jogo atingiu na Renascimento os 90 mil euros. O acontecimento despertou, dada a sua raridade, grande interesse por parte de museus e coleccionadores internacionais.