Aves da América por John James Audubon
No National Museum of Scotland

Conservatora Victoria Hanley a restaurar uma das ilustrações para o National Museums Scotland. Cortesia do National Museums Scotland.

Pormenor da Ilustração dos Parrots of Carolina (Periquitos da Carolina) do livro Aves da América por John James Audubon. John James Audubon (1785-1851). Créditos da image: © National Museums Scotland. Cortesia do National Museums Scotland.

Pormenor da Ilustração de um “Raven” (Corvo) do livro Aves da América por John James Audubon. John James Audubon (1785-1851). Créditos da image: © National Museums Scotland. Cortesia do National Museums Scotland.

Pormenor da Ilustração de um “White Throated Sparrow” (Pardal Garganta Branca) do livro Aves da América por John James Audubon. John James Audubon (1785-1851). Créditos da image: © National Museums Scotland. Cortesia do National Museums Scotland.

Pormenor da Ilustração dos “Carolina Pigeons or Turtle Doves” (Pombos de Carolina ou Pombas Tartarugas) do livro Aves da América por John James Audubon. John James Audubon (1785-1851). Créditos da image: © National Museums Scotland. Cortesia do National Museums Scotland.

Pormenor da Ilustração do “Purple Finch” (Tentilhão Roxo) do livro Aves da América por John James Audubon. John James Audubon (1785-1851). Créditos da image: © National Museums Scotland. Cortesia do National Museums Scotland.

Pormenor da Ilustração do “Fish Hawk” (Falcão de Peixe) do livro Aves da América por John James Audubon. John James Audubon (1785-1851). Créditos da image: © National Museums Scotland. Cortesia do National Museums Scotland

Pormenor da Ilustração do “Flycatcher Selby” (Apanha Moscas Selby) do livro Aves da América por John James Audubon.

Para comemorar o apoio de Edimburgo, Escócia,  no livro “Aves da América” de John James Audubon, de 1826, o National Museums Scotland dedicou-lhe uma notável exposição. Esta mostra itinerante é uma oportunidade única de poder admirar uma bela selecção de mais de 40 ilustrações de um dos livros raros e mais célebres e valiosos do mundo, “Aves da América” por John James Audubon (1785-1851).

Este livro é uma obra marcante da ilustração que levou quase 12 anos a ser concluída. Hoje, sabe-se que existem apenas 120 exemplares, e raramente estão expostos. Os desenhos apresentados nesta exposição, cada um, mede quase um metro de altura, são extraídos da colecção da biblioteca dos National Museums Scotland. A maioria destas obras nunca foram mostradas em público e sofreram anos de tratamento de conservação em preparação para a sua mostra inaugural.

Este evento é uma nova interpretação deste incrível conjunto de trabalhos e a sua história é complementada por cartas, taxidermia, manuscritos, fotografias e filmes. Esta apresentação destaca ainda o contexto histórico do livro e mostra o estilo artístico de Audubon, que foi tão inovador para a época. Finalmente, pode-se analisar, como esta publicação veio a influenciar as ciências naturais de hoje e como podemos aprender com o seu legado. Para além disso, pode-se observar ainda, como a comunidade em Edimburgo, Escócia, admirou esta obra e levou-a à sua publicação na sequência da sua rejeição pela comunidade científica em Filadélfia, EUA.

Um importante fio de conservação percorre toda a mostra e é destacado uma consciência desse impacto sobre a natureza e a forma como as populações de aves mudaram desde o século XIX. 

O livro “As Aves da América por John James Audubon” foi  publicado como uma série entre 1827 e 1838, e tornou-se na época, como uma obra de referência que alcançou renome internacional devido à escala do projecto e às espectaculares ilustrações de tamanho real.   

A exposição as Aves da América por John James Audubon de 12 de Fevereiro a 8 de Maio de 2022 apresenta 46 gravuras da colecção do National Museums Scotland, a maior parte das quais nunca foram expostas antes, assim como um raro volume encadernado do livro, cedido para este evento pela Biblioteca Mitchell. Esta mostra é uma oportunidade única de ver o trabalho de Audubon num só local. 

 

Os quatro volumes que compõem a obra “Aves da América”  em 435 ilustrações coloridas à mão. O livro foi o culminar da ambição da Audubon de pintar todas as espécies de aves na América do Norte, e é celebrado pelas suas ilustrações extraordinariamente animadas, dramáticas e detalhadas. A fim de acomodar aves em tamanho real, o livro foi impresso em papel com quase 1m de comprimento. Mesmo assim, algumas espécies maiores tiveram de ser postas em posições contorcidas a fim de caberem na página.  

  

Os antecessores de Audubon e contemporâneos ilustraram aves com um aspecto rígido e antinatural. O ilustrador foi pioneiro na sua representação de cenas da natureza, fixando aves em poses realistas, em que tinha sido observada na vida e pintadas no local.  

Audubon é um naturalista, que identificou mais de 20 espécies novas para a ciência. As suas pinturas do mundo natural são algumas das mais célebres da história de arte e das ciências naturais. 

A história de Audubon, contudo, está cheia de contradição e controvérsia, e a exposição vai dar um novo olhar tanto para a lenda que se construiu à sua volta, como para as realidades mais complexas e problemáticas. A sua posição científica é também contestada, com acusações de fabricar completamente algumas espécies e certamente cometeu erros na sua identificação das aves. 

John James Audubon (1785 – 1851) foi um naturalista americano de origem francesa, especializado na ilustração científica das aves. O seu trabalho mais conhecido “As Aves da América” alcançou, durante a sua vida, sucesso comercial e trouxe-lhe enorme popularidade junto do público. O prestígio científico alcançado pela obra valeu-lhe elogios rasgados dos seus pares e permitiu-lhe tornar-se o segundo americano (depois de Benjamin Franklin) a ser incluído na Royal Society britânica para as ciências.

Os Primeiros Anos

Audubon nasceu em 1785 no Haiti, era filho de um capitão da marinha mercante francesa. Aos 18 anos mudou-se para França, antes de se estabelecer na América. 

Em 1803 Audubon regressou à América, para fugir ao ingresso nos exércitos de Napoleão Bonaparte, e com a ajuda financeira do pai instalou-se em Mill Grove, perto de Filadélfia, onde a família tinha algumas propriedades. Nestes primeiros anos, Audubon desenvolveu o gosto pelo desenho de temas naturalistas, em particular das aves das suas redondezas. O seu interesse era também de ordem científica e a sua curiosidade levou-o a fazer as primeiras experiências conhecidas de anilhagem científica das aves migratórias, para ver que se elas regressavam ao mesmo local no ano seguinte.

Em Mill Grove, Audubon casou com Lucy Bakewell, filha de um dos seus vizinhos, que lhe deu dois filhos Victor e John. Pouco tempo depois do casamento, a família mudou-se para Louisville no Kentucky, onde por influência paterna Audubon era suposto dedicar-se a negócios comerciais. A experiência acabou por ser um falhanço e após ter perdido quase todos os investimentos e estar à beira da bancarrota, Audubon percebeu que esta não era uma vida para si e decidiu dedicar-se ao seu projecto de vida: desenhar todas as aves da América do Norte.

As Aves da América

Em nome deste sonho, Audubon percorreu os Estados Unidos da América à procura das aves que pretendia desenhar, enquanto Lucy Bakewell suportava a família como professora. A sua insistência em pesquisar os seus modelos na Natureza, em vez de utilizar exemplares em processo de taxidermia, (técnica de preservação de animais mortos, através do enchimento de palha) como nos museus, que era então uma abordagem totalmente nova da ilustração científica. Isto não significa, porém, que Audubon fosse um ecologista: ele fazia o seu trabalho de campo acompanhado de papel e material de desenho, mas também de uma espingarda que usava para matar as aves que pretendia ilustrar. Uma vez mortas, as aves eram repostas em posição de vida com arames e então eram desenhadas.

Em 1826, Audubon tinha a maioria das suas estampas preparadas e começou a realizar o seu livro, no entanto, não encontrou nenhuma casa editorial em Nova Iorque ou Filadélfia que quisesse arriscar o negócio, e decidiu procurar a sua sorte na Europa. Com o dinheiro poupado pela mulher, comprou uma passagem e viajou ao Velho Continente.

Audubon foi um sucesso quase imediato no Reino Unido, em parte devido à qualidade dos seus desenhos, em parte pelas suas qualidades de marketing, para vender “As Aves da América de Audubon”. O ilustrador adoptou uma aparência propositadamente exótica, deixando crescer o cabelo e aparecendo nos salões britânicos vestido de pioneiro americano, à maneira de David Crocket. As subscrições da obra não tardaram e Audubon pode contratar uma litografia para imprimir as 200 cópias das 435 gravuras que compunham o livro. Cada uma foi vendida ao preço exorbitante de 1 000 dólares americanos e entregues em volumes de 10 gravuras. Ao longo dos doze anos seguintes, o rei Jorge IV do Reino Unido foi um dos subscritores e entusiastas de Audubon, mas não foi o único. O Barão Georges Cuvier elogiou publicamente o trabalho de Audubon como um monumento à ornitologia e a Royal Academy convidou-o para se tornar membro da instituição.

O sucesso

Audubon regressou à América em 1829, com o objectivo de encontrar mais assinantes da sua obra e para fazer mais viagens, a fim de completar as gravuras que lhe faltavam. Neste período, Audubon procurou popularizar a sua obra ao editar, em 1840, uma versão mais barata do livro, acessível também à classe média. O sucesso da Oitava Edição foi imediato e a primeira edição esgotou rapidamente com as 1 200 cópias impressas.

Com os seus méritos reconhecidos e situação financeira estabilizada, Audubon comprou uma propriedade perto do rio Hudson, mas não parou de trabalhar. O seu projecto seguinte “Viviparous Quadrupeds da America d Norte”, ocupou os seus últimos anos e foi elaborado em colaboração com os seus dois filhos, John e Victor. Audubon morreu em 1851 e este livro foi publicado posteriormente em 1852.

Exposição

A exposição destaca também as ligações de Audubon com a comunidade científica e artística em Edimburgo, no final do Iluminismo, onde o processo de publicação do livro começou. Ele visitou Edimburgo seis vezes, incluindo visitas de investigação ao que é agora o próprio National Museums Scotland. A exposição destaca a história até aos dias de hoje, analisando o estado de conservação de algumas das espécies apresentadas em "Aves da América", através de 6 secções: Uma Arte e uma Ciência; Audubon em Edimburgo, Escócia; A Grande Obra; A realização de uma obra-prima; Naturalista ou Showman; e Aves do Mundo. 

Uma Arte e uma Ciência

Esta secção salienta o contexto artístico e científico do início do século XIX, quando o livro “Aves da América” foi realizado. Nesta época assistiu-se a um crescimento do envolvimento com a natureza tanto nas artes como nas ciências, alimentado pela Revolução Industrial e pelo movimento Romântico.

A obra de Audubon vai contrastar claramente entre o trabalho dos seus antecessores e contemporâneos, permitindo aos visitantes apreciar a abordagem pioneira adoptada pelo artista. As ilustrações das aves eram frequentemente rígidas e não eram naturais, o que não surpreende uma vez que eram frequentemente extraídas do estudo ou taxidermia em poses sem vida. Audubon retratou cenas da natureza, fixando as aves em poses realistas, que tinha observado em vida, e pintado no local. Esta prática tornou a arte de Audubon singularmente viva, cheia de personalidade e drama, e verdadeiramente requintada nos seus detalhes.

Audubon em Edimburgo, Escócia

Esta secção foca o papel de Edimburgo na realização da publicação das "Aves da América". Em 1826, Audubon viajou para Edimburgo pela primeira vez após a sua rejeição pela comunidade científica em Filadélfia. Nesta altura, Edimburgo era uma cidade cheia de novas ideias científicas, filosóficas e culturais do Iluminismo que Audubon terá experimentado em primeira mão.

Foi em Edimburgo que começou a trabalhar com o artista escocês William Home Lizars para gravar e iniciar o processo de publicação de Aves da América, como um conjunto de quatro volumes, financiado pelos assinantes. Os seus diários e cartas oferecem detalhes intrigantes dos seus encontros, as suas impressões sobre as pessoas que conheceu, e o impacto sobre ele.

A Grande Obra: A realização de uma obra-prima

Esta secção é o ápice da exposição, com uma edição fac-símile encadernada de Aves da América, como peça central, mostrando a escala de cortar a respiração do livro que mede 100 x 130 cm, quando aberto.

Subsecções distintas em torno desta exposição central revelam a audácia técnica do projecto, as técnicas artísticas envolvidas e as implicações práticas das mesmas. Um exemplo é a insistência da Audubon de que todas as ilustrações mostrariam o tamanho das aves. Isto exigia enormes folhas de papel, quase as maiores disponíveis na altura. Mesmo assim, algumas espécies tiveram de ser retratadas em contornos bizarros para caberem nas páginas do livro, cada uma media 96 x 66 cm. 

Na exposição foram planeados vários filmes curtos e envolventes para mostrar a perícia incluída na realização da visão da Audubon, tais como gravura e aguarela. Esta secção apresenta um filme, como os conservadores da Northumbria University (UK) e dos National Museums Scotland mostram uma visão sobre o papel e os pigmentos utilizados nas imagens das aves.

Naturalista ou Showman

Esta penúltima secção explora o legado da Audubon como artista e cientista e a sua contínua relevância para a conservação da natureza nos dias de hoje.

Audubon foi o primeiro naturalista a retratar aves nos seus habitats, mostrando o seu comportamento, e aves de rapina com as suas presas. Identificou 25 espécies que eram novas para a ciência, mas também cometeu erros de identificação.

Aves do Mundo

A secção final da exposição trata do legado de conservação de Audubon - a sensibilização para o impacto do homem sobre o mundo natural. Devido às alterações climáticas, à caça e à perda de habitat, muitas das espécies de Audubon representadas são agora altamente vulneráveis ou extintas, tais como o periquito da Carolina.

Através da exibição com imagens e de uma apresentação em filme, os visitantes podem explorar como o nosso mundo natural mudou desde o século XIX. A exposição termina com um olhar sobre o trabalho vital de conservação que está em curso, lembrando aos visitantes porque é que a beleza e fragilidade da natureza vale a pena proteger.

Acerca da mostra, Mark Glancy, curador da exposição, afirmou: "Aves da América é um dos livros mais belos e célebres do mundo, e a história da sua criação é extraordinária.  A maioria das pessoas apenas viu cópias digitais, pelo que esta exposição dá aos visitantes uma oportunidade única de ver tantas das gravuras juntas num só local e apreciar a escala e ambição da "Grande Obra" de Audubon.  Este ilustrador foi, e continua a ser, uma figura contraditória e controversa e a exposição examina os mitos e a realidade por detrás deste ícone americano".  

 

Theresa Bêco de Lobo