A Idade de Ouro do Renascimento Português 

A Partida das Relíquias de Santa Auta de Colónia (verso),1522/1525. Cristóvão de Figueiredo, Óleo sobre painel de carvalho Créditos da imagem: © DGPC/ADF, Luísa Oliveira / José Paulo Ruas. Colecção Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, inv. 1462. Cortesia Musée du Louvre, Paris.

O Bom Pastor, (cerca 1520). Frei Carlos, Óleo sobre painel de carvalho Créditos da imagem: © DGPC/ADF, Luísa Oliveira / José Paulo Ruas. Colecção Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa. Cortesia Musée du Louvre, Paris.

A Conversão do Mago Hermógenes pelo São Tiago (cerca 1520/1525). Mestre de Lourinhã. Óleo sobre painel de carvalho Créditos da imagem: © DGPC/ADF, Luísa Oliveira / José Paulo Ruas. Colecção Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa. Cortesia Musée du Louvre, Paris.

Inferno (cerca 1510/1520). Pintor anónimo, Óleo sobre painel de carvalho Créditos da imagem: © DGPC/ADF, Luísa Oliveira / José Paulo Ruas. Colecção Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, inv. 432. Cortesia Musée du Louvre, Paris.

A Adoração dos Pastores 1515. Jorge Afonso, Óleo sobre painel de carvalho Créditos da imagem: © DGPC/ADF, Luísa Oliveira. Colecção Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, inv. 2096. Cortesia Musée du Louvre, Paris.

A Virgem e o Menino com os Anjos, 1539. Gregório Lopes Óleo sobre painel de carvalho Créditos da imagem: © DGPC/ADF, Luísa Oliveira/ José Paulo Ruas. Colecção Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, inv. 30. Cortesia Musée du Louvre, Paris.

O Casamento de Santa Úrsula e do Príncipe Conan (frente) 1522/1525. Cristóvão de Figueiredo, Óleo sobre painel de carvalho Créditos da imagem: © DGPC/ADF, Luísa Oliveira/ José Paulo Ruas. Colecção Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Lisboa, inv. 1462. Cortesia Musée du Louvre, Paris.

A Virgem Amamentand o Menino, (cerca 1520). Frei Carlos, Óleo sobre painel de carvalho. Créditos da imagem: © DGPC/ADF, Luísa Oliveira/ José Paulo Ruas. Colecção Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, inv. 1180. Cortesia Musée du Louvre, Paris.

A exposição de pintura portuguesa dedicada ao Renascimento está patente num dos mais conhecidos museus em todo o mundo durante três meses, de 10 de Junho a 10 de Setembro de 2022.

Esta mostra faz parte de uma parceria entre o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu do Louvre, que pretendeu levar até Paris uma exposição dedicada à pintura portuguesa do Renascimento:  “A Idade de Ouro do Renascimento Português”.

Muito raramente se tem exibido ou mesmo mencionado nos museus franceses, a pintura portuguesa, que merece um olhar mais atento. Esta apresentação de cerca de 15 notáveis painéis pintados, cedidos pelo Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa, é uma oportunidade única para o público francês descobrir a pintura portuguesa por si própria. Os visitantes do Museu do Louvre terão a chance de ver as belíssimas e magistrais obras de artistas como Nuno Gonçalves (activo 1450 - antes de 1492), Jorge Afonso (activo 1504-1540), Cristóvão de Figueiredo (activo 1515- 1554) e Gregório Lopes (activo 1513-1550). Esta exposição faz parte da Temporada França-Portugal 2022.

Combinando de forma altamente original as criações pictóricas do primeiro Renascimento italiano e inovações dos pintores flamengos importados por artistas como Jan van Eyck que permaneceram em Portugal em 1428/1429, a escola portuguesa de pintura fez o seu nome a partir dos meados do século XV, ao mesmo tempo que o reino de Portugal se encontrava em plena expansão.

Graças ao mecenato dos reis Manuel I (reinou 1495-1521) e João III (reinou 1521- 1557), que se rodearam de aristas, em que a pintura portuguesa viveu uma idade de ouro na primeira metade do século XVI antes de ser obscurecida pela crise da sucessão da coroa em 1580 e pela anexação de Portugal por Espanha.

Desde a exposição fundadora da arte portuguesa na Era dos Grandes Descobrimentos patente no Jeu de Paume em Paris, em 1930, as últimas exposições em França sobre o tema (Sol e Sombras: Arte Portuguesa do Século XIX, exibida no Musée du Petit Palais, Paris, em 1987, e Vermelho e Ouro: Tesouros do Barroco Português, no Musée Jacquemart- André, Paris, em 2001) não trataram deste período privilegiado da Renascença Portuguesa.

Graças à aquisição de pinturas portuguesas pelo Musée du Louvre através da generosidade dos doadores, a história desta escola começou a tomar forma, com quatro pinturas dos séculos XV a XVIII a formar um pequeno núcleo. O Departamento de Pinturas procura continuar a expandir-se nesta base, de acordo com a vocação universal do Musée du Louvre e o seu dever de propor uma visão mais completa possível da pintura europeia.

Esta mostra é também uma oportunidade para destacar de forma mais geral as pinturas portuguesas expostas em França, como parte do projecto de inventário das pinturas ibéricas nas colecções nacionais francesas realizado em conjunto com o Institut National d'Histoire de l'Art.

A exposição abre com o “São Vicente Atado à Coluna” de Nuno Gonçalves, foi o primeiro grande pintor português, ainda no século XV, mas todos os artistas presentes nesta mostra trabalharam em Lisboa até meados do século XVI. Enquanto a capital de um império em construção, a cidade era então um exemplo de multiculturalismo, virada para o mar e aberta ao Novo Mundo que se estava a descobrir. Muito influenciada pelos pintores de origem flamenga, como Francisco Henriques ou o Mestre da Lourinhã, que trouxeram para Portugal a sua técnica refinada da pintura a óleo. 

Para além de Nuno Gonçalves, o primeiro grande pintor português cujo painel abre a exposição, os artistas da exposição presentes, estiveram todos activos em Lisboa na primeira metade do século XVI. Capital do vasto império português, Lisboa era então uma cidade multicultural virada para o oceano que transportava riqueza e descobertas do Novo Mundo para a Europa. Também acolheu as cortes dos reis Manuel I e João III, ambos construtores e grandes patronos das artes.

A exposição pretende iluminar uma época particularmente inovadora na história da pintura europeia, quando os pintores de origem flamenga como Francisco Henriques ou o Mestre da Lourinhã trouxeram a Portugal uma técnica magistral e muito refinada da pintura a óleo e um novo gosto pelas paisagens e pelos efeitos decorativos dos tecidos e materiais preciosos.

Um grupo de artistas tomou forma em torno de Jorge Afonso, que desempenhou um papel importante na corte. Assimilaram esta nova forma de pintar e executaram a grande maioria dos retábulos encomendados pelo rei para igrejas e mosteiros. O refinamento da técnica flamenga era perfeitamente adequado a esta arte da corte, mas era também combinada com um sentido de narração por vezes humorístico num gosto por detalhes naturalistas e a representação de figuras e objectos quotidianos.

As pinturas expostas no Louvre são todas religiosas e contêm detalhes encantadores, muitas vezes uma natureza morta ou uma abertura para uma paisagem poética. O painel anónimo do Inferno não é excepção e foi muito provavelmente encomendado num contexto religioso; a evocação dos pecados mortais permite também uma descrição precisa dos objectos, alguns dos quais foram importados da América, e deixa espaço para os nus, que são muito raros na pintura portuguesa deste período.

ÉPOCA FRANCO-PORTUGAL 2022

Numa decisão conjunta do Presidente de França e do Primeiro-Ministro de Portugal, a Época França-Portugal tem lugar simultaneamente nos dois países entre 12 de Fevereiro e 31 de Outubro de 2022.

Esta Época transcultural França-Portugal, que faz parte da Presidência francesa do Conselho da União Europeia, é uma oportunidade para realçar os laços estreitos que unem os dois países, encarnados em particular pela presença em França de uma comunidade muito grande de origem portuguesa, e em Portugal de um número crescente de franceses. Estes dois grupos dinâmicos, e activos constituem um elo humano e cultural entre a França e Portugal.

Para além de um programa que mostra a cultura europeia, a Época França-Portugal 2022 destaca também um compromisso concreto com os temas que os dois países partilham e que juntos se esforçam por defender na Europa do século XXI: a transição ecológica comum, particularmente através do tema do Oceano; a igualdade de género; o investimento na juventude; o respeito pelas diferenças e os valores da inclusão.

Através de mais de 200 projectos que consistem em mais de 480 eventos, na sua maioria co-construídos entre parceiros franceses e portugueses em 87 cidades em França e 55 em Portugal. 

A Época França-Portugal 2022 pretende destacar as muitas colaborações entre artistas franceses e portugueses, investigadores, intelectuais, estudantes, empresários, cidades, regiões, instituições culturais, universidades, escolas e associações. Todas as iniciativas moldam laços profundos e sustentáveis entre os dois países europeus e contribuem para a construção da Europa.

A comissária portuguesa da Temporada França-Portugal 2022 sublinhou a importância de ter 15 obras do Renascimento português no museu parisiense. Até porque a arte portuguesa desta época é muito pouco conhecida em França. E se recorda que o Louvre tem uma Josefa de Óbidos, Manuela Júdice admitiu que "com esta dimensão nunca tinha havido uma exposição de pintura portuguesa" naquele museu. E de sublinhar: "É o peso do Louvre. O museu onde está a Vitória de Samotrácia, onde está a Mona Lisa". Por isso, "ter aqui no Museu Francês a nossa arte do Renascimento é muito importante. Até para os franceses perceberem que nós também temos notáveis pinturas".

 

Theresa Bêco de Lobo