A Forma de Liberdade I Abstracção Internacional depois de 1945

Sem título (Azul, Amarelo, Verde sobre Vermelho), 1954. Mark Rothko (Russo, 1903 — 1970). Óleo sobre tela. Imagem Digital: Whitney Museum of American Art / Licensed by Scala. Créditos da imagem: © Kate Rothko Prizel & Christopher Rothko/VG Bild-Kunst, Bonn 2022. Colecção Whitney Museum of American Art, New York. Cortesia Museum Barberini, Potsdam, Alemanha.

Centro de Dominância, 1958. Judit Reigl (Húngara, 1923 – 2020). Óleo sobre tela. Imagem: © bpk / CNAC-MNAM / Georges Meguerditchian. Créditos da imagem: © VG Bild-Kunst, Bonn 2022. Colecção Centre Pompidou, Paris. Musée national d'art moderne / Centre de creation. Cortesia Museum Barberini, Potsdam, Alemanha.

Composition No. 16, 1948. Jackson Pollock (Americano, 1912 – 1956). Óleo sobre tela. Créditos da imagem: © Pollock-Krasner Foundation / VG Bild-Kunst, Bonn 2022. Colecção Museum Frieder Burda, Baden-Baden. Cortesia Museum Barberini, Potsdam, Alemanha.

Lot 46: f. Ernst Wilhelm Nay (Alemão, 1902 – 1968) Óleo sobre tela. Imagem: Fondation Gandur pour l‘Art, Genève. Photographer: Sandra Pointet Créditos da imagem: © Elisabeth Nay-Scheibler, Köln/ VG Bild-Kunst, Bonn 2022 Colecção Fondation Gandur pour l‘Art, Genève. Cortesia Museum Barberini, Potsdam, Alemanha.

Floresta Encantada, 1947 Jackson Pollock (Americano, 1912 – 1956). Pintura a óleo e esmalte alquídico sobre tela. Imagem: Solomon R. Guggenheim Foundation, New York (Photo: David Heald). Créditos da imagem: © Pollock-Krasner-Foundation/VG Bild-Kunst, Bonn 2022. Colecção Peggy Guggenheim Collection, Venice (Solomon R. Guggenheim Foundation, New York). Cortesia Museum Barberini, Potsdam, Alemanha.

Saf Heh, 1959. Morris Louis (Americano,1912-1962). Magna sobre tela. Créditos da imagem: © VG Bild-Kunst, Bonn 2022. Colecção Privada, Suiça. Cortesia Ekaterina Klim.

Águia Calva, 1955 Lee Krasner, (Americana, 1908 - 1984) Óleo e colagem, papel e tela sobre linho. Créditos da imagem: © VG Bild-Kunst, Bonn 2022. Colecção Privada, Suiça. Cortesia Ekaterina Klim.

Sem título (Natureza Morta com Três Óculos), 1962. Janice Biala (Americana, 1903-2000). Óleo e colagem sobre tela. Imagem: McCormick Gallery, Chicago. Créditos da imagem: © VG Bild-Kunst, Bonn 2022. Colecção Richard and Karen Duffy, Chicago. Cortesia Museum Barberini, Potsdam, Alemanha.

Meu Anjo de Concha, 1986. Sam Francis (1923 - 1994). Acrílico sobre tela. Imagem: Lutz Bertram. Créditos da imagem: © Sam Francis Foundation, California/VG Bild-Kunst, Bonn 2022. Colecção Hasso Plattner Collection. Cortesia Museum Barberini, Potsdam, Alemanha.

Pintura na Europa e nos Estados Unidos

 

“A arte abstracta não é um estilo. Só quero trabalhar uma superfície de uma forma que funcione. Trata-se da utilização do espaço e da forma; trata-se de uma ambivalência de formas e de espaço. Na pintura, o estilo é uma questão de etiqueta. (...) No outro dia alguém me disse, bastante surpreendido: "Não se pinta 'séries', pinta-se quadros, e cada quadro é diferente". E pensei para comigo: "Não, eu pinto quadros". 

                                                                                                                                                             Joan Mitchell, 1986

 

O Museum Barberini, em Potsdam, Alemanha, apresenta a exposição: “A Forma da Liberdade: Abstracção Internacional depois de 1945, Pintura na Europa e nos Estados”, uma mostra que destaca a interacção criativa entre o Expressionismo Abstracto e a Arte Informal no intercâmbio e diálogo transatlântico, a partir dos meados dos Anos 40 até ao fim da Guerra Fria. O evento está patente de 4 de Junho a 25 de Setembro de 2022.

 

Após a Segunda Guerra Mundial, a pintura seguiu novas concepções. Uma nova geração de artistas virou as costas aos estilos do período entre guerras: Em vez de pintar a representação figurativa ou abstracção geométrica, os pintores seguiram os movimentos artísticos, como o Expressionismo Abstracto nos Estados Unidos da América e a Arte Informal na Europa Ocidental, adoptaram uma abordagem radicalmente impulsiva para formar, cor, e material. Como expressão de liberdade individual e o gesto espontâneo do pintor ganhou um significado simbólico. As pinturas do campo da cor em grande escala criaram um espaço meditativo para a reflexão das questões fundamentais da existência humana.

 

Respondendo às atrocidades e traumas da Segunda Guerra Mundial, os artistas associados à Arte Informal quebraram com as tradições anteriores do trabalho naturalista, figurativo e geométrico para abraçar formas anti compositivas, técnicas gestuais, e uma espontaneidade e irracionalidade influenciada pelo Surrealismo. Cunhado pelo crítico Michel Tapié, a Arte Informal era um termo, que abrangia uma variedade de estilos e artistas que, como Tapié descreveu, não estavam interessados em movimentos, mas "em algo muito mais raro, como indivíduos autênticos". Tapié incluiu neste agrupamento artistas europeus, assim como artistas americanos, holandeses e japoneses, tornando a Arte Informal numa reacção internacional a eventos mundiais.

 

A exposição

A Forma de Liberdade destaca a interacção criativa entre o Expressionismo Abstracto e a Arte Informal no intercâmbio e diálogo transatlântico, a partir dos meados dos Anos 40 até ao fim da Guerra Fria. Inclui mais de noventa obras de cerca de cinquenta artistas, entre eles Sam Francis, Helen Frankenthaler, K. O. Götz, Lee Krasner, Georges Mathieu, Joan Mitchell, Ernst-Wilhelm Nay, Barnett Newman, Jackson Pollock, Judit Reigl, Mark Rothko, e Clyfford Still. Foram emprestadas para a mostra mais de trinta obras, pelas instituições artísticas internacionais, como o Centre Pompidou em Paris, o Tate Modern em Londres, o Museo Nacional Thyssen- Bornemisza em Madrid, o Whitney Museum of American Art em Nova Iorque, o Museum Frieder Burda, em Baden-Baden, e a Peggy Guggenheim Collection em Veneza.

A exposição foi organizada pelo Museum Barberini, Potsdam, e pelo Albertina Modern, Viena, com o apoio da Fondation Gandur pour l'Art, Genève.

 

Abstracção

No início dos Anos 40 assistiu-se ao desenvolvimento de um grupo de pintores, que em 1946 foram conhecidos por "Expressionistas Abstractos" pelo crítico Robert Coates. 

O “Expressionismo Abstracto” ou também conhecido como Escola de Nova Iorque, foi um movimento artístico com origem nos Estados Unidos, cujo auge foi atingido nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Foi o primeiro movimento artístico especificamente americano a atingir influência mundial, colocando a cidade de Nova Iorque no mapa do panorama artístico mundial (posição previamente exercida por Paris, na França).

Os pintores mais conhecidos do “expressionismo abstracto” são Arshile Gorky, Jackson Pollock, Philip Guston, Willem de Kooning, Clyfford Still.

Na década de 1930, muitos pintores europeus conhecidos mudaram-se para os Estados Unidos, fugidos da Segunda Guerra Mundial, entre eles Max Ernst, Hans Hofmann, Fernand Léger, André Masson, Piet Mondrian. Estes artistas fixaram-se principalmente, em Nova Iorque e influenciaram muitos dos jovens pintores norte-americanos. Em 1943 o encontro entre os velhos mestres europeus e os jovens pintores norte-americanos traduziu-se no movimento mais significativo da pintura moderna dos Estados Unidos da América – o “Expressionismo Abstracto”.

O movimento ganhou este nome por combinar a intensidade emocional do expressionismo alemão com a estética anti-figurativa das Escolas abstractas da Europa, como o Futurismo, o Bauhaus e o Cubismo Sintético. O termo foi usado pela primeira vez para designar o movimento americano em 1946 pelo crítico Robert Coates. Mas a noção de expressionismo abstracto, só foi utilizada pela primeira vez em 1952, pelo crítico H. Rosenberg, no seu artigo “Artistas Americanos do Action Painting”, publicado nesse ano, no jornal “Art News”.

O E”xpressionismo Abstracto”, foi o primeiro estilo pictórico norte-americano a obter o merecido reconhecimento internacional, elevando os Estados Unidos como nova potência mundial e centro artístico emergente.

As principais características do “Expressionismo Abstracto” eram a revolta contra a pintura tradicional, a liberdade e a espontaneidade.

 

Quanto à espontaneidade, em especial, o “Action Paintings” de Jackson Pollock, era um método de pintura que privilegiava a rapidez da execução, a espontaneidade “eruptiva” e condenava a premeditação, foi bastante bem-sucedida e considerada uma característica da mentalidade do “Expressionismo Abstracto”.

O “expressionismo abstracto” reuniu um grande conjunto de manifestações, sendo possível identificar duas tendências principais. Uma, que se integrava na corrente da “Action Painting”, incluindo as obras de pintores como Jackson Pollock, Willem de Kooning ou Franz Kline. Nas suas obras, bastante gestualistas, a tinta era lançada directamente na tela, através de gestos instintivos, onde o acaso e o aleatório determinavam a evolução da pintura.

A outra tendência, mais meditativa ou “mística”, integrava os pintores Rothko e Gottlieb. Estes artistas exploravam preferencialmente as qualidades tácteis e os efeitos sensitivos da cor e produziram quadros abstractos utilizando poucos elementos, representados com limites indefinidos e relações cromáticas de grande subtileza.

Nem todas as obras deste movimento são abstractas, como algumas obras de Willem de Kooning, de Mark Rothko ou de Barnett Newman. Era normalmente aceite que a abordagem do artista ao seu trabalho se deveria relacionar directamente com o seu inconsciente, libertando uma diferente criatividade.

Apesar de ter uma maior expressão nos Estados Unidos, com o tempo também se expandiu para a Europa, onde se desenvolveu um “expressionismo abstracto” com preocupações mais intelectuais e menos radicais, que na América, a sua dramaticidade estava mais relacionada com estado de espírito e pelo existencialismo.

As obras desenvolvidas na Europa, principalmente em França, continham um clima mórbido com um carácter mais introspectivo do que o expressionismo. Ao invés da pesada carga de revolta visível nas obras da Escola de Nova Iorque, os artistas europeus eram mais identificados com as meditações sobre a condição humana, o mal-estar que consistiria num “existir”, que não era um “viver”.

Uma expressão mais dominada pela melancolia e imobilidade do que a revolta expansiva dos americanos. Provavelmente uma consequência, causa directa, da brutal passagem e vivência directa com o massacre da Segunda Guerra Mundial.

O pintor europeu mais relevante deste movimento, foi o alemão conhecido pelo nome de Wols, pseudónimo de Alfred Otto Wolfgang Schulze. Alem dele, também com um trabalho de grande importância, encontramos o alemão Hans Hartung, os franceses Jean Fautrier e Jean Dubuffet, os italianos Antonio Burrie Lucio Fontana e o catalão Antoni Tapiês, entre outros.

 

Este importante grupo - que incluía, na sua maioria, Jackson Pollock, Willem de Kooning, Mark Rothko, Arshile Gorky, Barnett Newman, e Clyfford Still - estava unido na procura de uma reconciliação do conteúdo turbulento e psicologicamente carregado do surrealismo francês pré-guerra e das inovações pictóricas intransigentes da abstracção pós-cubista europeia. Vendo-se envolvidos num período trágico da história (os EUA entraram na Segunda Guerra Mundial em 1941), tinham como objectivo produzir obras abstractas, que transmitissem, no entanto, um sentido de temas humanos heroicos ou sublimes. A este respeito, uma das suas principais inovações foi aumentar drasticamente a escala das suas pinturas e assim afastar-se da tradição da pintura de cavalete. Para além disto, os expressionistas abstractos podiam ser divididos em duas tendências: a pintura gestual e a pintura de campo colorido.

O expressionismo abstrato gestual é mais bem exemplificado por Pollock, o artista do grupo cujo trabalho alcançou primeiro sucesso crítico. Por volta de 1947 ele fez um grande avanço técnico na sua pintura, colocando as suas enormes telas não esticadas no chão do seu estúdio e pingando a tinta ritmicamente nas suas superfícies de todos os lados, usando paus em vez de pincéis. 

Os pintores do campo da cor envolvidos no grupo, nomeadamente Rothko e Newman, minimizaram a marca expressiva a favor de vastas extensões de cor, que se destinavam a incutir uma sensação de espanto no espectador. As linhas horizontais de cor de Rothko, pairando contra um solo orientado verticalmente (como em Sem Título, 1951), tornaram-se sinónimo de abstracção do final do século XX.

Os abstracionistas franceses como Henri Michaux e Georges Mathieu e o artista alemão Wols (Alfred Otto Wolfgang Schulze) tinham semelhanças superficiais, mas o seu trabalho é frequentemente menos intransigente no abandono de resíduos de composição, e Michaux em particular trabalhou numa escala muito reduzida num espírito essencialmente caligráfico. Na Grã-Bretanha, o grupo de pintores de St. Ives - nomeadamente Patrick Heron, Roger Hilton, e Peter Lanyon - estavam estilisticamente mais próximos dos americanos, mas inspiraram-se frequentemente na paisagem, nomeadamente na da Cornualha, no sul de Inglaterra, onde estavam baseados. 

 Foi a pintura do campo da cor, com a sua ênfase na luminosidade de grandes áreas planas de cor, que gerou o legado mais significativo no desenvolvimento da abstracção americana. Os pintores envolvidos no que Greenberg denominou "abstracção pós-pinturas", tais como Helen Frankenthaler, Morris Louis, e Kenneth Noland, envolveram-se num esforço concertado para aperfeiçoar a linguagem da pintura modernista. 

                                                                                                                                                                                                                 

 Theresa Bêco de Lobo