ARTE NOVA ARQUITECTURA E OBJECTOS DECORATIVOS

Nasce-se numa maternidade, no mar, num avião, num barco, no campo, na selva. Nasce-se onde Deus quiser. O nosso futuro, dizem alguns, está escrito nas palmas das nossas mãos. Não vou por aí. O nosso futuro depende dos nossos genes, da nossa vontade e da determinação que dermos a cada acto da nossa vida.

Em criança, sentia dentro de mim uma enorme vocação para coleccionar o que quer que fosse. Comecei pelos botões, fáceis de conseguir senão tivessem nenhuma beleza, difíceis se fossem de metais nobres, com pedras finas ou de marfim com miniaturas do Pillement e brasonados.

Foquei a minha aprendizagem sobre a História de Arte, aprendi o insuficiente para as minhas ambições. E, sempre que aparecia um curso, que fosse de encontro aos meus desejos, lá ia eu inscrever-me e estar atenta nas aulas para não perder pitada do que o mestre ensinava. No final da aula, se tinha dúvidas não deixava o professor em paz enquanto não me sentisse esclarecida.

E foi, desta maneira que entrei no mundo da Arte Nova. Toda a minha família achava essas peças absolutamente horrorosas. Já casada, tive a oportunidade de adquirir os candelabros de prata que ilustram este artigo e senão fosse essa a prenda de Natal que dei a mim própria, decerto a Baronesa de Resende e outros familiares que estavam em minha casa para a Consoada, tinham sido mais severos para comigo.

Não sei exactamente em que época é que o Dr. Manuel Pedro Rio de Carvalho, (que teve uma infância infeliz passada numa cama), decidiu convencer a direcção da Fundação Calouste Gulbenkian, entidade particular que tem a melhor Colecção de Jóias Art Nouveau” e de Vidros “Art Deco”, a dar aulas sobre essas duas matérias. E deu e foi excelente.

Se nos detivermos um pouco para pensar quais são os principais elementos que participam na beleza das peças Arte Nova, acode-nos à memória, em primeiro lugar, os longos cabelos femininos, as curvas e as contra curvas que, na maioria das vezes, servem para dar mais importância ao caule do que à flor, e finalmente, as flores.

As flores e as mulheres têm um esplendor comum.

No momento em que escrevo este texto virada para uma janela alta com três portas de vidro escancaradas para receber alguma frescura da noite, o aroma do jasmim invade este meu espaço solitário. Bendito seja Deus!

Adoro as hortênsias e as rosas da minha varanda. A buganvília anda a fazer-me negaças e a pedir mais água. Este calor infernal que origina incêndios e saídas de casa para exposições solares na praia, não é recomendável. Nos últimos dias tenho recebido muitas flores de amigas (os) que têm manifestado a sua amizade pelo facto da Moda & Moda ter cumprido 32 anos de existência e do site estar cada vez mais interactivo. O meu oratório tem muitas flores, a Nossa Senhora que está no meu quarto de dormir, também está muito florida, e a minha sala de jantar e o salão de visitas até teve direito a ervilhas de cheiro branco que a minha afilhada Alexandra mandou vir de propósito da Holanda. Também, há por aqui, bastantes orquídeas e cito-as mais demoradamente porque foram muito amadas pelos criadores da Arte Nova. É uma espécie de rainha das flores, flor jóia, flor serpente, flor esfinge, com pétalas carnudas, de goelas abertas, ameaçando, brancas ou pintalgadas como umas indecisas que tenho na jarra da entrada, que parece esconder nas suas dobras tortuosas o segredo da vida. Flor enigmática, fantástica, da qual se pode imaginar que foi procriada pela mão epiléptica de um deus em delírio.

As flores que dão a alma especial que a Arte Nova encerra são muito mais do que as orquídeas. Há anémonas, peónias, glicínias, azáleas e o “gui” que mil anos a.C. já os druidas usavam em poções, -  uma maneira que os padres da religião celta, tinham para combater as terríveis epidemias que os atacavam com uma certa frequência, ameaçando a população.

Na gramática do estilo Arte Nova o Girassol tem um lugar privilegiado. D´Annunzio, referiu-o da forma mais poética possível, que não resistimos a citar: “… En haut de longues tiges sulfureuses sans feuilles, ils portent ces larges tiges non coronnés de petals ni chargé de grains mais semblables dans leur nudité à des emblemes liturgiques, à de pâles ostensoirs d´or”.

Se me pedissem para classificar a Arte Nova em poucas palavras, escreveria: curvas e contra-curvas, longos cabelos femininos e flores.

Este artigo é o primeiro de uma série em que abordaremos a Arte Nova e a Arte Deco.

As peças que mostramos, sobretudo as de prata são, na sua maioria, de origem portuguesa. Não têm assinatura, mas são feitas por mãos hábeis dos nossos prateiros, reconhecidos internacionalmente como bons mestres.

Chamamos a atenção dos nossos leitores, para o pormenor do cadeirão ter sido executado numa oficina portuguesa, em Lisboa. Por cá, também tínhamos mestres marceneiros que se ocupavam de acompanhar os tempos e as modas.

Este trabalho sobre Arte Nova nas Artes Decorativas, que também abrange a arquitectura, vem na sequência da Exposição que está patente ao público no Museum of Fine Arts, em Houston, até 23 de Outubro próximo, cujo trabalho se pode ver no nosso site www.modaemoda.pt no link Artes Decorativas onde está o texto “Um olhar sobre o Oriente”.

Da autoria da nossa colaboradora, de há 31 anos, Profª. Doutora Thereza Beco de Lobo, o texto que se segue vem na sequência dessa exposição que tratou do movimento estético nascido em Inglaterra em 1860, por artistas insatisfeitos com a repetição do “gothic revival” por todo o lado. William Morris, Ruskin, Whistler, entre outros das terras de Sua Majestade a Rainha Vitória, de Tiffany nos EUA e de Émile Gallé (França)… abriram novos horizontes.

Em simultâneo com a aprendizagem do Prof. Rio de Carvalho e de livros que fui adquirindo no mercado, de exposições a que assisti, aos domingos e feriados levantava-me cedo para ir fotografar algumas moradias situadas no Campo Grande e muitos prédios da Av. da República, (aquela que ainda se chamou D. Carlos, pois foi esse o rei que a impulsionou), não tinha ficado com o aspecto sem nenhuma mais-valia, como a que se apresenta hoje. Que pena!

Em Lisboa, conheci muito bem o Palacete do Lar das Doroteias, unicamente para raparigas universitárias, situado no nº 8 da Av. Fontes Pereira de Melo, que foi demolido apesar de ter a mais bela escadaria que se pode imaginar e um vitral de grandes dimensões na Sala de jantar. Deslumbrei-me com temas mais humildes mas não menos belos como as padarias da Graça, os quiosques perto da Av. 24 de Julho, os pequenos espaços comerciais da chamada Baixa Lisboeta quando a Rua Garrett, fica cá bem no alto e ourivesarias e lojas de moda que foram renovando os seus interiores. Enfim… não se pode parar no tempo, mas há espaços que devem ser preservados.

Na Baixa, propriamente dita, aquela que o Marquês de Pombal destruiu, a pretexto do tremor de terra, que deixou de pé muitos edifícios góticos e casas com janelas manuelinas como as de Évora, há um espaço verdadeiramente notável. É o Animatógrafo do Rossio que se situa na Rua dos Sapateiros perto do Arco Bandeira. Nunca lá entrei, por me parecer que não tem filmes que me sejam adequados.

Que bonito é o portão de ferro, em forma de borboleta da Casa Museu Anastácio Gonçalves, em frente à Maternidade Alfredo da Costa. Nesse edifício trabalhou o pintor José Malhoa e também lá existe uma casa de jantar digna de ser admirada.

Na Rua Braamcamp, em Lisboa, resta um edifício Arte Nova que teve um elevador lindíssimo, mas que a inteligência de quem governava a empresa trocou, por um, sem qualquer interesse. Na mesma Rua, na esquina com a Rua Rodrigo da Fonseca também existem dois prédios a merecerem preservação. Na Rua Alexandre Herculano, um pouco antes do Rato há uma grande garagem com um vitral Arte Nova que só passa desapercebido a quem anda de olhos fechados. O prédio em frente, junto à sinagoga tem um Prémio Valmor e muitos resquícios de decoração Arte Nova, especialmente na barra de azulejos da cimalha.

Em Lisboa há um bairro que merece destaque. Trata-se de Campo de Ourique, na Rua Silva Carvalho, onde a pastelaria Tentadora dá cartas, e outros edifícios menos ostensivos, que nem por isso, merecem menores cuidados.

De salientar que todas as grandes obras Arte Nova da cidade de Lisboa, foram projectadas pelo arquitecto Manuel Joaquim Norte Júnior (Lisboa 1878 – Sintra 1962) iniciadas nos anos 1904-1905, quando em Paris e outras grandes cidades europeias, esse estilo já estava a cair no esquecimento. O atraso de sempre.

Norte Júnior trabalhou muito em Paris e mesmo assim, já fora de prazo, muitos dos seus edifícios Arte Nova foram distinguidos com o Prémio Valmor. A sua obra por mim preferida é o prédio da Av. Da Liberdade nºs 206 a 218; o edifício da Praça Duque de Saldanha (Prémio Valmor) onde o meu tio Raul teve uma namorada; o Palacete Belmarço, em Faro, que fazia os meus encantos quando eu era pequenina…

Detesto as cavalariças do Norte Júnior quase em frente ao Castelo/Palácio Barros também no Estoril. Aquele arco monumental das cavalariças é detestável.

 

O contacto com o melhor da Arte Nova

O meu primeiro grande contacto com a Arte Nova, a nível de obra pública, foram as entradas do Metropolitano, em Paris, da autoria de Hector Guimard. Até os candeeiros me deslumbraram. Depois, passei a ir a Paris com frequência e ficava na Av. Suffren, numa casa que me era cedida por uma senhora norte-americana que vivia em Nova Iorque a quem pagava a minha estadia, na sua casa totalmente arte-nova, desde a porta de entrada no prédio até aos interiores. Deixei esse apartamento para residir na habitação da minha amiga Alicia Papadopoulos, na Avenue François Ier. Ora, a Av. Suffren fica nos quarteirões que se abrem para o Champ de Mars, sempre com vista para a Torre Eiffel. Bons tempos! Excelentes tempos, especialmente quando o meu marido era vivo e podia deslocar-se comigo. O seu tempo era pouco para a actividade que exercia. O nosso mês de férias em Agosto, ninguém nos tirava, nem o 25 de Abril que me roubou as acções dos Bancos, das Cªs. de Seguros, da Sorefame e das Hidro-Eléctricas. Destas últimas, tenho muito que escrever, pois além do roubo descarado que foi ficarem com as minhas acções, ainda passo por situações inacreditáveis como a gracinha de me cortarem a luz, com as minhas contas em dia. Mas, quero esquecer isto. Estou a escrever sobre a Arte Nova da minha paixão e desejo que esses senhores tenham os amargos de boca que me têm dado a mim.

A Arte Nova a invadir o mundo de beleza

Dá-se como certo que a Arte Nova teve início em 1880 e que terminou em 1910. Aceito como boa a data do seu nascimento, mas quanto a 1910, tenho razões para afirmar que não é verdade. Depois da Implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, por exemplo, em Barcelona, construíram-se muitos prédios e em Lisboa e outras cidades portuguesas surgiram aqui e acolá algumas moradias dignas de registar tais como a que é actualmente o Museu de Arte Nova de Aveiro e um palacete no Cartaxo que vi há anos e desconheço em que estado se encontra.

Já escrevemos sobre os nossos encantamentos da Arte Nova, em Paris, mas talvez tenha sido na Bélgica que senti no coração, com mais ênfase, a força estética desse movimento criado por arquitectos, escultores, pintores, todos eles grandes poetas. As construções, as artes decorativas de Victor Horta e Henry van de Velde deixaram-me quase sem respiração. Do fecho da porta, da curva da escadaria à beleza dos ferros ou dos bronzes, respira-se arte a cada olhar. 

E a Bélgica tem muita matéria para me tornar feliz. Falam muita da boa cozinha. Não é por aí que perco a cabeça. As rendas de Bruxelas, a pintura flamenga, essas sim, dão-me vida.

Não posso pronunciar-me muito sobre a “Sezession”, nome que dão à arte Nova Nova, na Áustria, porque o que vi foi de passagem, mas na Hungria até me apetecia aplaudir batendo palmas.

A Inglaterra, na sua habitual frieza, não foi generosa para com uma exposição de Lalique, tendo chegado ao cúmulo de atacar fortemente o lindíssimo “plateau” de grandes dimensões que é peça destacada no Museu Gulbenkian, em Lisboa. Os ingleses são mesmo muito complicados. A minha mãe detestava-os e a filha…

Os espanhóis são mesmo muito “engraçados”. Cito os senhoritos da Catalunha. Querem ser sempre os melhores em tudo. Querem…

É pena andarem atrasados. Enchem a boca e os panfletos turísticos com a casa Batlló, um sonho para quem leu muitos contos de fadas, mas pouco para os que viram muita Arte Nova na sua vida. A Casa Lleó i Morera, situada no quarteirão da discórdia, não me fazia dar um passo para a contemplar. O Palácio da Música Catalão, (Palau de la Musica) começou a ser construído entre 1905/1908 quando as grandes obras da Arte Nova já estavam a sofrer alterações e os mercados não os valorizavam. É um facto que a clarabóia do Teatro é bonita, em qualquer lugar, e que Anton Rigailt i Blanch sabia iluminar uma sala. Mas uma obra-prima Arte Nova, como a classificam, é outra coisa.

Aliás, para se entender o espírito catalão basta observar as figuras femininas dos tímpanos das portas dos prédios do, inícios do séc. XX e perceber que aquele trabalho é uma simples imitação das pinturas pre-rafaelitas.

Barcelona, a terra de Gaudí. A cidade de uma igreja que foi acabada em 1964.

A Arte Nova nas minhas andanças

Fui a Budapeste ainda a Perestroika não tinha devolvido a liberdade ao povo húngaro. Conheci uma senhora no lado de Peste, com um ar de grande fidalga, perdida naquela selvajaria que por ali sofreu. Estava rezando a Santo António, meu patrício e o meu Santo preferido. Troquei com a citada senhora umas palavras em francês e vi-me diante de uma personalidade culta a que tinham ocupado o seu palácio, com uma Ceres com mais de 3 metros no pátio, uma obra-prima de enorme grandeza. Por favor, nesse palácio que era seu, tinham-lhe dado um quarto para dormir e um espaço de cozinha comum. Triste história!

Passados três anos voltei a Budapeste, por vontade própria, e encontrei a mesma senhora, agora no seu palácio, mas ainda com algumas dificuldades económicas, razão pela qual alugava quartos a turistas. E foi com essa grande senhora que fui visitar os banhos termais em Gellert, no lado de Buda, num edifício de 1918 (estes ainda estavam mais atrasados que os espanhóis e os portugueses, mas não fiz qualquer reparo.

Devo confessar que mau grado as termas estarem com muita gente, consegui com a minha amiga húngara ausentar-me, e na nossa abstracção contemplar os tectos altos do balneário com relevos Arte Nova, assim como os mosaicos das paredes e na cúpula do edifício.

Em boa verdade já lá podia ter voltado, mas a senhora não respondeu a duas cartas, receio ter o desgosto de não a voltar a ver.

Sei que experimentar os banhos termais em Budapeste faz parte da visita cultural desta cidade. Os romanos já ali se banharam há mais de 2.000 anos. A cidade tem 131 fontes termais.

Não sou muito virada para termas, gosto de movimento, de gente divertida, de arte, de alegria e entre muitas outras coisas da amizade sincera e… naturalmente, da Arte Nova.

 

Marionela Gusmão

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